Registro, no Vale do Ribeira: a cidade do chá e da imigração japonesa que pouca gente conhece

Portal vermelho em estilo japonês na Praça Nakatsugawa, entre palmeiras e gramado
O portal da Praça Nakatsugawa, homenagem à cidade-irmã japonesa. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Quem desce a Régis Bittencourt rumo ao Paraná costuma passar direto por Registro, de olho no relógio. Pois vale tirar o pé. Saber o que fazer em Registro é descobrir galpões de tijolo erguidos por uma companhia japonesa há mais de cem anos, uma igreja de imigrantes no meio da mata e plantações de chá que um dia deram à cidade o apelido de capital do chá no Brasil.

Registro fica a 189 km de São Paulo, às margens do Rio Ribeira de Iguape no coração do Vale do Ribeira. O nome vem do tempo do ouro: no século 17, era aqui o porto onde o metal que descia o rio era registrado e fiscalizado. A virada veio no começo do século 20, com a chegada das primeiras famílias japonesas, que transformaram a várzea em arrozais e, depois, em chá.

O que fazer em Registro começa nos galpões do KKKK

O cartão-postal da cidade é o conjunto de galpões de tijolo aparente à beira do rio, com arcos nas fachadas e grandes letras K pintadas no alto. O nome é a sigla de Kaigai Kogyo Kabushiki Kaisha, a companhia japonesa que organizou a colonização da região.

Galpões de tijolo com arcos e letras K numeradas no Centro Cultural KKKK, o que fazer em Registro
Os galpões do Centro Cultural KKKK, à beira do Rio Ribeira. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Os galpões foram construídos entre 1920 e 1922 para beneficiar e guardar o arroz dos colonos, e o conjunto tinha ainda escritório e uma loja de secos e molhados. Depois de décadas de abandono, o prédio foi tombado, comprado pela prefeitura e restaurado pelo escritório Brasil Arquitetura. Hoje é o Centro Cultural KKKK, com exposições, eventos e um gramado enorme que pede uma caminhada sem pressa até a margem do Ribeira, com a chaminé antiga ao fundo.

O Memorial da Imigração Japonesa

Para entender quem eram aquelas famílias, o passo seguinte é o Memorial da Imigração Japonesa. O acervo reúne documentos, fotos e objetos doados pelos pioneiros e seus descendentes: cestos trançados, latões, arados, ferramentas da lavoura. Peças simples, que contam como era abrir roça no meio da mata úmida do Vale.

Cesto de palha trançada, latões de metal e ferramentas agrícolas expostos no Memorial da Imigração Japonesa
Objetos dos primeiros colonos no Memorial da Imigração Japonesa. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O Memorial guarda também quadros e esculturas de artistas nipo-brasileiros, como Tomie Ohtake e Manabu Mabe. Confirme o horário antes de ir, porque o funcionamento muda ao longo do ano.

A igreja que os imigrantes ergueram em 1929

No bairro rural de Manga Larga, a poucos quilômetros do centro, está uma das construções mais curiosas do interior paulista. A Igreja Todos os Santos foi inaugurada em 1929 e é considerada a primeira igreja cristã erguida por imigrantes japoneses no Brasil. Os moradores que a construíram tinham se convertido ao anglicanismo, e o resultado é uma capela de madeira com varanda e telhado de barro, de linhas que lembram os templos xintoístas.

Igreja Todos os Santos, de varanda azul e telhado de barro, cercada de mata, o que fazer em Registro
A Igreja Todos os Santos, no bairro Manga Larga, de 1929. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Hoje a igreja pertence à Igreja Episcopal Anglicana do Brasil e recebe cultos só três vezes por ano. No resto do ano, fica ali, quieta, cercada de mata.

Já no centro, o Templo Budista, inaugurado em 1979 pelas famílias de colonos, segue a escola Jodo-Shinshu e mostra o outro lado da fé trazida do Japão, com um altar dourado de encher os olhos.

Altar dourado com imagem de Buda, lanternas e cortinas vermelhas no Templo Budista
O altar do Templo Budista, de 1979. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O que fazer em Registro para provar o chá de família

Durante boa parte do século 20, Registro viveu do chá. A cidade chegou a ter mais de 40 fábricas, e boa parte do chá preto colhido no Vale seguia para fora do país. Com o tempo, a concorrência e os custos fecharam quase todas. A Amaya, de uma família que trabalha com chá desde os anos 1930, é a última unidade grande que segue em produção.

O fim das exportações deixou muitos chazais abandonados, mas uma família resolveu recomeçar. No Sítio Shimada, a produtora Ume Shimada, conhecida como a rainha do chá, abriu uma pequena fábrica com certificação orgânica e passou a fazer chá preto, verde, branco e defumado. A visita inclui o chazal, a fábrica e a loja, e é o passeio mais saboroso fora do centro. Combine a visita antes de ir.

Festas japonesas e as lanternas no Rio Ribeira

Quem cuida das tradições é a Associação Cultural Nipo-Brasileira de Registro, o Bunkyo, que tem sede própria em estilo japonês, com telhado curvo e colunas vermelhas. É ela que organiza a Festa do Sushi, o Bon Odori, as cerimônias do chá e as quermesses da colônia ao longo do ano.

Sede da Associação CulturalNipo-Brasileira de Registro, com telhado em estilo japonês e colunas vermelhas, o que fazer em Registro
A sede do Bunkyo, que organiza as festas japonesas da cidade. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A festa mais emocionante é o Tooro Nagashi, que acontece todo 2 de novembro, Dia de Finados. Depois de uma cerimônia em memória dos antepassados, centenas de lanternas de papel acesas são colocadas no Rio Ribeira e descem devagar com a correnteza, levando os nomes de quem já se foi. Se der para programar a viagem para essa data, programe.

Praças com torii, tulipa de aço e o monumento do centenário

Andar pelo centro de Registro é encontrar a cultura japonesa a cada esquina. A Praça Nakatsugawa tem um grande portal vermelho no estilo dos torii japoneses e homenageia a cidade-irmã no Japão, com quem Registro firmou um tratado em 1980.

Na Praça Beira Rio, de frente para o Ribeira, fica o Monumento Guaracui, uma tulipa de aço doada por Tomie Ohtake em 2002, também em homenagem aos imigrantes. A praça tem ciclovia e área de lazer, e é o melhor lugar da cidade para ver o fim da tarde sobre o rio.

Monumento colorido com duas esferas, vermelha e azul, que celebra os 100 anos da imigração japonesa no Brasil
O monumento aos 100 anos da imigração japonesa, de 2008. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Em outro ponto da cidade, o monumento colorido com duas esferas, uma vermelha e outra azul, celebra os 100 anos da imigração japonesa no Brasil, de 1908 a 2008.

Roteiro de um dia: o que fazer em Registro de manhã à tarde

Comece cedo pelo Centro Cultural KKKK e pelo Memorial. Depois do almoço, vá até a Igreja Todos os Santos, em Manga Larga, e passe pelo Templo Budista na volta. Se tiver visita marcada no Sítio Shimada, encaixe à tarde. Termine na Praça Beira Rio, com o sol caindo sobre o Ribeira.

Registro também é uma boa base para o resto do Vale. A pouco mais de uma hora de estrada estão o centro colonial de Iguape e as ostras de Cananéia. Para o lado das cavernas, dá para seguir até a Caverna do Diabo, em Eldorado, e até o PETAR. E quem gostou da história do chá pode emendar com o Casarão do Chá, em Mogi das Cruzes.

Tomar uma xícara de chá feito ali do lado, depois de ver os galpões onde tudo começou, é perceber que Registro é muito mais do que uma parada na estrada.

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.