Quando a armada de Martim Afonso de Sousa ancorou em Cananéia, em 1531, já havia gente morando por ali. Por isso a cidade, no extremo sul do litoral paulista, disputa com São Vicente o título de mais antiga do Brasil. No centro histórico, uma igreja de paredes grossas servia de fortaleza, e o museu guarda um tubarão-branco de 5,5 metros.
Fora do centro, o Quilombo do Mandira cultiva ostras no mangue e recebe visitantes, e as cachoeiras do continente ficam a poucos quilômetros. Do porto saem os barcos para a Ilha do Cardoso, e os botos-cinza costumam acompanhar os passeios.
Cananéia e a disputa pela cidade mais antiga
A armada de Martim Afonso aportou na Ilha do Bom Abrigo, em frente à cidade, em 1531, e essa data passou a ser considerada a da fundação de Cananéia. Relatos da época falam em mestiços e indígenas vivendo no lugar, e histórias locais citam até um português, o “Bacharel de Cananéia”, que teria chegado décadas antes, sem comprovação.
São Vicente, fundada em janeiro de 1532, ficou com o título oficial de primeira vila do Brasil, porque tem a documentação que falta a Cananéia. A disputa entre as duas cidades segue até hoje.
Cananéia recebeu a armada de Martim Afonso em 1531 e disputa com São Vicente o título de cidade mais antiga do Brasil.
O centro histórico de Cananéia
O centro histórico de Cananéia foi tombado pelo Condephaat em 1969. São ruas de pedra, calçadas estreitas e casarões coloridos, muitos restaurados, que guardam a arquitetura dos tempos coloniais até o fim do século 19. A Rua do Fogo reúne alguns dos casarões mais antigos.

À noite, é ali que a cidade se movimenta, com bares, restaurantes e sorveterias. A Praça Martim Afonso de Sousa, a Praça da Figueira e o porto ficam a poucos passos uns dos outros. Perto do centro, vale procurar a figueira centenária que nasceu em cima de uma pedra, um dos símbolos de Cananéia.
A igreja que servia de fortaleza
A Igreja Matriz São João Batista foi erguida no fim do século 16, por volta de 1577. Como a costa vivia sob ameaça de piratas e invasores, ela foi construída com paredes grossas, portas fortes e sem janelas, com seteiras, aberturas por onde se podia atirar sem ser visto. Assim, podia servir de fortaleza.

Hoje a igreja, branca com detalhes azuis, é tombada pelo patrimônio estadual. A festa do padroeiro, São João Batista, acontece em junho. No largo do centro histórico, um marco de pedra e canhões antigos lembram o passado de vila disputada por portugueses, espanhóis e franceses.

O tubarão-branco do Museu Municipal
O Museu Municipal Viktor Sadowsky ocupa um prédio de paredes de pedra e conta a história da cidade, com utensílios caiçaras, objetos antigos e fotos. Mas quem entra procura logo o destaque do acervo: um tubarão-branco empalhado com 5,5 metros de comprimento.
O animal, de cerca de 3,5 toneladas, foi capturado em 1992 na costa da região e é considerado o segundo maior tubarão-branco em exposição no mundo.
Quilombo do Mandira e as ostras
No km 12 da estrada do Ariri, fica o Quilombo do Mandira, comunidade quilombola que vive dentro de uma reserva extrativista. A principal atividade é o manejo de ostras: os moradores cultivam e coletam as ostras no mangue, de forma controlada, e vendem direto para quem visita.

Desde 2004, a comunidade recebe visitantes com turismo de base comunitária. O roteiro inclui os viveiros de ostras, a Casa de Pedra, a capela de Santo Antônio, onde se reza o terço cantado, e um sambaqui. Alguns roteiros passam ainda pela casa de farinha e pelas ruínas de um antigo engenho de arroz. Há restaurantes, uma piscina abastecida pela água da cachoeira e artesanato feito com cipó, sementes e tecido. Como os passeios são organizados pela própria comunidade, combine a visita antes.

Cachoeiras no continente
Além das praias das ilhas, Cananéia tem cachoeiras no continente. A do Mandira fica perto do quilombo, na estrada do Ariri, com poço e mata em volta. A Cachoeira do Rio das Minas, uma das mais bonitas da região, fica numa propriedade particular e tem acesso de dificuldade média.

A região tem ainda as cachoeiras do Ariri e do Pitu. Para as trilhas, a recomendação é ir com monitor ambiental, que conhece o caminho e as condições do rio.
Botos, ilhas e o Lagamar
Cananéia faz parte do Lagamar, o complexo de mangues e canais entre o litoral sul de São Paulo e o Paraná, reconhecido pela Unesco como patrimônio natural. Em 2022, a revista Condé Nast Traveler colocou a cidade entre os melhores destinos ecológicos do mundo.
Do porto saem passeios de barco pelas ilhas, e em várias épocas do ano os botos-cinza acompanham as embarcações. A Ilha do Cardoso, parque estadual sem carros, é o passeio mais procurado, e a Ilha Comprida fica do outro lado do canal, com acesso por balsa.
Dicas para visitar Cananéia
Cananéia fica a cerca de 265 quilômetros de São Paulo. O caminho é pela Rodovia Régis Bittencourt até Pariquera-Açu e, depois, pela SP-222. O centro histórico se percorre a pé, e as ostras aparecem nos cardápios dos restaurantes da cidade. Agosto é mês de festa: o aniversário da cidade é no dia 12, e a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, no dia 15.
Para completar o roteiro pelo Vale do Ribeira, a vizinha Iguape, com seu casario colonial, e o Parque Carlos Botelho, com os muriquis, ficam na mesma região.
Igreja com cara de fortaleza, tubarão de 5 metros e ostras tiradas do mangue: Cananéia junta história, natureza e mesa farta numa mesma viagem.
Para você, Cananéia ou São Vicente: qual é a cidade mais antiga do Brasil?




