Há trezentos anos, canoas carregadas de gente, armas e mantimentos deixavam a margem do Rio Tietê rumo a uma viagem de meses até as minas de ouro de Cuiabá. O ponto de partida era aqui. Saber o que fazer em Porto Feliz é andar pelo mesmo barranco de onde saíam essas expedições, hoje um parque no centro da cidade, ao pé de um paredão de rocha que as araras ainda visitam.
Porto Feliz fica a 112 km de São Paulo e faz parte do Roteiro dos Bandeirantes. É uma cidade tranquila, que dá para conhecer a pé em um dia, entre o rio, a igreja de taipa e os prédios da antiga ferrovia. Além do Tietê, o município é cortado pelo Rio Sorocaba, e a vida da cidade sempre andou ligada à água.
O que fazer em Porto Feliz começa no Parque das Monções
As monções eram os comboios fluviais que, no século 18, levavam paulistas às minas de ouro de Mato Grosso. Saíam em grupos de dezenas de canoas, desciam o Tietê e seguiam por outros rios até Cuiabá. Porto Feliz era o porto de partida, e a cidade guarda essa memória no Parque das Monções.

O parque fica no centro, foi aberto em 1920 no local exato do antigo porto e é tombado pelo Condephaat. Tem escadarias de tijolo, árvores grandes e um passeio que corre colado ao paredão. É o lugar certo para começar a visita, de preferência de manhã cedo, quando o parque está mais fresco.
O Paredão Salitroso, a pedra das araras
O paredão de rocha que acompanha o passeio é o símbolo da cidade. É uma formação de calcário e arenito, considerada monumento natural e estudada como sítio arqueológico. Foi ele que deu nome ao lugar: o povoado antigo se chamava Araritaguaba, palavra tupi que quer dizer “pedra onde as araras bicam”.

O salitre da rocha atraía as aves, que bicavam a pedra para se alimentar. Ainda hoje há quem veja pássaros bicando o paredão nas primeiras horas da manhã ou no fim da tarde, por isso vale chegar cedo e olhar com calma.
Numa das reentrâncias do paredão fica a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, escavada na rocha com ajuda de dinamite. É um ponto de oração e também uma das fotos mais bonitas do parque, com a imagem branca da santa no meio da pedra e das plantas.

O Monumento às Monções e o batelão
No parque, o Monumento às Monções, projetado por Amadeu Zanni em granito, tem três relevos em bronze que reproduzem cenas famosas das expedições, pintadas por Almeida Júnior, Hércules Florence e Adrien Taunay. É uma aula de história a céu aberto.

Perto dele fica um batelão, a canoa usada nas monções. Era feita de um tronco único de peroba-rosa ou ximbuva e podia levar 90 sacos de mantimentos ou até 105 pessoas. Ver o tamanho da peça ajuda a imaginar como era a viagem: meses de rio, cachoeiras e mata pela frente.

Para quem quer se aprofundar, a cidade também tem o Museu das Monções, reaberto depois de anos fechado para restauro. Confirme o horário antes de ir.
A Igreja Matriz de taipa, de 1750
Na praça central, a Igreja Matriz Nossa Senhora Mãe dos Homens foi construída em 1750, em taipa de pilão, por mãos escravizadas. A fachada creme e laranja, com duas torres, é uma das mais bonitas da região.
Por dentro, painéis pintados pelo artista italiano Bruno de Giusti, nos anos 1970, contam a história da cidade. Vale entrar com calma e olhar cada quadro. A igreja e o Parque das Monções ficam no centro, então dá para ligar os dois passeios a pé, e a praça em frente é um bom lugar para uma pausa à sombra.
A estação de estilo inglês e o antigo armazém
Porto Feliz também teve seus tempos de ferrovia. A antiga Estação Sorocabana, de 1920, foi construída em estilo inglês, inspirada nas estações londrinas, com tijolos aparentes e faixas claras. Restaurada, hoje abriga a biblioteca e o arquivo municipal.

Ao lado, o antigo armazém de cargas, de 1919, virou a Estação das Artes, espaço de exposições. Os dois prédios ficam perto do centro e combinam com uma caminhada depois do parque.
Outros passeios para saber o que fazer em Porto Feliz
A Casa da Alfândega, tombada pelo Condephaat, era o lugar onde se cobravam impostos e hoje funciona como restaurante e bar. A Casa de Cultura Dona Narcisa Stettner Pires ocupa um casarão de taipa de pilão e pau a pique, com a arquitetura da época preservada.
Na zona rural, a Adega Pelegrini produz vinho artesanal e serve café colonial e almoço tradicional, e o Sítio Traviú tem pães caseiros, geleias e vinho da casa. São boas paradas para encerrar o passeio.
Roteiro de um dia: o que fazer em Porto Feliz de manhã à tarde
Comece cedo pelo Parque das Monções, com o paredão, a gruta, o monumento e o batelão. Depois, suba até a Igreja Matriz e passe pela estação e pelo armazém. Almoce no centro ou numa das propriedades rurais e, à tarde, volte ao rio para ver a luz no paredão.
Use calçado confortável, porque o parque tem escadarias, e leve água nos dias quentes. A cidade fica a 112 km de São Paulo e combina com outras paradas do Tietê. Rio abaixo, a eclusa de Barra Bonita faz barcos subirem e descerem a represa, e a nascente do rio está em Salesópolis. Por perto, ainda dá para emendar com Itu e Salto.
Ficar em pé na beira do Tietê, ao lado da pedra das araras, e imaginar as canoas partindo é o tipo de viagem no tempo que só uma cidade como Porto Feliz oferece.


