Em 1926, Mário de Andrade passou uma temporada numa chácara de Araraquara e ali, em poucos dias, escreveu a primeira versão de Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Quase cem anos depois, a cidade ainda guarda a chácara, uma estação de trem transformada em museu e um distrito rural onde as coxinhas ficaram famosas graças a outro escritor. Saber o que fazer em Araraquara é juntar literatura, ferrovia e uma boa mesa no mesmo passeio.
Araraquara fica a 270 km de São Paulo, no centro do estado. O nome vem do tupi e costuma ser traduzido como “toca das araras”. A cidade cresceu com o café e com os trilhos, que chegaram no fim do século 19 e fizeram dela um dos entroncamentos ferroviários do interior paulista.
O que fazer em Araraquara começa no Museu Ferroviário
O ponto de partida do passeio é a antiga estação ferroviária, construída em 1912, que hoje abriga o Museu Ferroviário Francisco Aureliano Araújo. A plataforma coberta, com o relógio antigo pendurado, os bancos de madeira e os arcos pintados, já transporta o visitante para a época em que os trens de passageiros paravam ali todos os dias.
Araraquara foi o ponto de partida da Estrada de Ferro Araraquarense, que avançava rumo ao noroeste paulista levando café, gente e mercadorias. O museu conta essa história com mobiliário, ferramentas, documentos e fotografias da época de ouro da ferrovia. O grande destaque é uma maquete detalhada da estação antiga, com trilhos, prédios e trens em miniatura, feita por um apaixonado por ferreomodelismo, que encanta crianças e adultos.
O museu também homenageia seis araraquarenses mortos na Revolução Constitucionalista de 1932. A entrada é gratuita, mas confira os dias e horários de funcionamento antes de ir.
Bueno de Andrada e a coxinha que virou crônica
A poucos quilômetros do centro fica Bueno de Andrada, um distrito rural que cresceu em volta de outra estação de trem. O prédio amarelo, com cobertura de madeira ao lado dos trilhos, hoje é o Centro Turístico e Comercial, onde produtores da região vendem alimentos caseiros e artesanato.

Mas quem vai a Bueno de Andrada vai, quase sempre, atrás das coxinhas douradas do Bar e Mercearia Freitas. A fama começou quando o escritor araraquarense Ignácio de Loyola Brandão escreveu uma crônica sobre elas no jornal O Estado de S. Paulo. Desde então, gente de várias cidades faz a viagem só para provar a coxinha crocante, de massa dourada e recheio farto, que sai quente da panela direto para o balcão.

O distrito também tem calendário de festas, como a do padroeiro, a Matinê de Carnaval, a Delícias do Milho e o Encontro de Bicicletas. Num fim de semana de festa, o passeio fica ainda mais animado. Mesmo sem festa, a combinação de estação antiga, produtos da roça e coxinha quente vale a viagem, e o distrito é tranquilo para uma caminhada curta entre a estação e o bar.
A chácara onde nasceu Macunaíma
A Chácara Sapucaia, onde Mário de Andrade escreveu Macunaíma, é parte importante da história da cidade e da literatura brasileira. Hoje funciona como centro cultural, com documentos e peças históricas, além de artesanato inspirado nos personagens do livro. Para quem leu Macunaíma na escola, é uma visita curiosa: dá para imaginar o escritor ali, inventando as aventuras do herói que nasceu “no fundo do mato-virgem”.

As salas preservam móveis, quadros e fotografias, entre elas um retrato do próprio escritor. Confirme os horários de visita antes de ir, porque o funcionamento pode mudar ao longo do ano.
O que fazer em Araraquara no centro
No centro, o Museu Histórico e Pedagógico Voluntários da Pátria ocupa um prédio imponente e guarda objetos de arte popular, mobiliário, maquinário e apetrechos das antigas fazendas de café. É o lugar certo para entender como a cidade se desenvolveu.

A Matriz de São Bento, tombada pelo patrimônio histórico, é o marco de fundação da cidade e foi erguida em terras doadas pelo fundador, Pedro José Neto. Já a Igreja Nossa Senhora das Graças chama a atenção pela arquitetura arredondada, pelo teto em forma de abóbada invertida e pelos 24 ornamentos de ferro moldado na fachada. Por dentro, o altar com a imagem da santa sobre um fundo vermelho é dos mais bonitos da cidade.

Para descansar, a Praça do DAAE, construída nos anos 1940, é um dos cartões-postais de Araraquara, com a Fonte Luminosa Clélia Honain, palmeiras e muita sombra. Aos domingos, a praça recebe apresentações de chorinho, e no fim da tarde a fonte é um bom ponto de encontro para quem quer fechar o passeio com calma, sentado num banco à sombra das palmeiras.

Roteiro de um dia: o que fazer em Araraquara
Comece pelo Museu Ferroviário pela manhã e siga para o Museu Histórico e as igrejas do centro. Na hora do almoço, pegue a estrada para Bueno de Andrada: coxinha, produtos caseiros e uma volta pela estação. À tarde, visite a Chácara Sapucaia e termine o dia na Praça do DAAE. Quem tiver mais tempo pode esticar até o Hotel Fazenda Salto Grande, que tem uma cachoeira de 50 metros.
Araraquara combina com outras paradas ferroviárias da região. A cerca de 40 km, São Carlos também tem estação histórica e maquete de trem, e ainda a Fazenda Santa Maria do Monjolinho. Para montar uma viagem sobre trilhos, veja as estações históricas do interior e os passeios de trem em SP.
Comer uma coxinha quentinha ao lado de uma estação antiga, depois de ver onde nasceu um dos livros mais famosos do país, é o tipo de dia que só o interior paulista oferece.





