Os bondinhos vermelhos e amarelos estão parados na garagem, e os trilhos que sobem a serra não veem passageiros desde 2024. Agora o trem de Campos do Jordão tem um dono novo: a Estrada de Ferro Campos do Jordão passou para a CPTM, a mesma companhia que opera os trens metropolitanos da Grande São Paulo.
A mudança veio com a Lei Estadual nº 18.498, aprovada pela Assembleia Legislativa em 6 de outubro, sancionada no dia 14 e publicada no Diário Oficial em 16 de outubro de 2026. Para quem sente falta do passeio, é uma notícia boa, mas ainda não é a volta do trem. Veja o que se sabe.
O que muda no trem de Campos do Jordão com a CPTM
Pela nova lei, a CPTM assume a propriedade da ferrovia, os bens, a gestão, a operação e a fiscalização dos serviços. A companhia também fica com os contratos e as licitações que estavam em andamento.

A gestão é transitória: vale até que a ferrovia seja concedida à iniciativa privada ou receba outro destino do governo do estado. Os funcionários da estrada de ferro mantêm cargos, salários e direitos, num quadro especial ligado à Secretaria dos Transportes Metropolitanos. Segundo a CPTM, a ideia é levar a experiência técnica da companhia para a linha, preservar o valor histórico e turístico e preparar a ferrovia para novos investimentos.
Quando o trem de Campos do Jordão volta?
Ainda não há data. O governo chegou a preparar a concessão da ferrovia por 24 anos, com investimento estimado em cerca de R$ 400 milhões, e o leilão estava marcado para abril de 2026. Em junho, a licitação foi suspensa, e um novo cronograma não foi divulgado.

O projeto da concessão previa a volta em etapas: primeiro a Maria Fumaça entre as estações Emílio Ribas e Abernéssia, depois os bondes até o Novo Portal e, mais adiante, um passeio turístico de média distância pela serra até Eugênio Lefèvre, em Santo Antônio do Pinhal. Com a CPTM no comando, a expectativa é que a ferrovia seja mantida e preparada até que esse processo seja retomado.
Uma ferrovia criada para levar doentes à serra
O trem de Campos do Jordão nasceu por causa da saúde. No começo do século 20, os médicos Emílio Ribas e Victor Godinho defendiam que o ar frio e seco da Serra da Mantiqueira ajudava no tratamento da tuberculose, e Campos do Jordão começava a receber doentes e sanatórios. Faltava um jeito rápido de subir a serra.

As obras começaram em 1912, e a ferrovia foi inaugurada em 15 de novembro de 1914, com 47 km entre Pindamonhangaba, no Vale do Paraíba, e Campos do Jordão. Por causa de problemas financeiros, o governo do estado assumiu a linha em 1916, e a eletrificação ficou pronta em 1924. Por décadas, a estrada de ferro levou passageiros e carga e até cuidou do serviço telefônico da região, de 1917 a 1971.
A primeira viagem turística foi em 1936. Em 1977, o transporte de carga acabou, e a ferrovia passou a viver de passageiros e, cada vez mais, de turistas.
A subida da serra sem cremalheira
A linha é famosa entre os apaixonados por trens por um detalhe técnico: ela sobe a serra só com a aderência das rodas nos trilhos, sem a cremalheira, o trilho dentado usado em ferrovias de montanha. Em alguns trechos, a rampa passa de 10% de inclinação.

O ponto mais alto é o Alto do Lageado, a 1.743 metros de altitude, considerado o ponto ferroviário mais alto do Brasil. Perto dali, em Santo Antônio do Pinhal, fica a subestação que alimenta a rede elétrica da linha, ao lado da estação Eugênio Lefèvre.

O caminho do trem pela serra
A linha começa em Pindamonhangaba, no fundo do Vale do Paraíba, atravessa a zona rural e começa a subir a Mantiqueira. Em Santo Antônio do Pinhal fica a estação Eugênio Lefèvre, e mais acima vem o Alto do Lageado. Depois, os trilhos entram em Campos do Jordão e passam por Abernéssia, pela estação Emílio Ribas, em Capivari, e seguem até a região do Portal, na entrada da cidade.
O trem nunca foi rápido, e essa sempre foi parte da graça. No trecho de serra, a velocidade máxima é de 22 km/h, e dentro de Campos do Jordão, de 30 km/h. A frota tem locomotivas, automotrizes, bondes e carros de passageiros, alguns deles de madeira, que viraram cartão-postal da cidade.
Os passeios que o trem de Campos do Jordão fazia
Antes da paralisação, o visitante tinha três opções. O trem turístico saía de Campos do Jordão e descia até Santo Antônio do Pinhal, com paradas como o Alto do Lageado, no ponto mais alto da linha. O bondinho fazia o trajeto pelo eixo central da cidade, entre os bairros, e a Maria Fumaça saía de Capivari e ia até Abernéssia.

O serviço parou em 2020, voltou em parte em 2022 e foi suspenso de novo dois anos depois. Desde 2024, a ferrovia está totalmente sem operação. Os bondinhos, os carros de madeira e as estações continuam lá, e algumas paradas ainda podem ser vistas por quem caminha pela cidade.
Enquanto o trem não volta
A ferrovia parada não tira o encanto da viagem. Em Campos do Jordão, a Vila Capivari, o Palácio Boa Vista e os jardins continuam abertos. Na descida da serra, Santo Antônio do Pinhal tem o Pico Agudo, com vista para o vale, e Pindamonhangaba, onde a linha começa, tem palacetes e museus.
Para quem quer andar de trem agora, os passeios mais perto de São Paulo são o Expresso Turístico da CPTM, que sai da capital para Jundiaí, Mogi e Paranapiacaba, e a Maria Fumaça de Campinas, entre fazendas de café.
O trem de Campos do Jordão já passou por paradas, reformas e recomeços em mais de cem anos de história. A mudança para a CPTM é mais um capítulo, e os bondinhos vermelhos continuam esperando os passageiros na garagem.





