A antiga fazenda de café de Botucatu que hoje é campus da Unesp, e dá para visitar

Casa Grande da Fazenda Lageado, com varandas de dois andares, colunas e balaustrada, na luz da tarde
A Casa Grande, hoje Museu do Café. Foto: Andres Buerckas / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Entre salas de aula, estufas e laboratórios, estudantes de agronomia cruzam todos os dias um terreiro de tijolos onde, há mais de cem anos, o café secava ao sol. A Fazenda Lageado, em Botucatu, é uma fazenda de café que virou universidade sem perder a cara de fazenda. E qualquer pessoa pode entrar para ver.

A Casa Grande de varandas, as tulhas de tijolo, a passarela suspensa e as máquinas antigas estão todas ali, dentro do campus da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp. É um passeio tranquilo, de meio dia, que combina bem com a serra e as cachoeiras da região.

A Fazenda Lageado, uma fazenda de café do século 19

A Fazenda Lageado surgiu na segunda metade do século 19, quando o café avançava pelo Oeste Paulista e transformava Botucatu numa cidade rica. Foi montada como uma grande empresa cafeeira, voltada à exportação, com tudo o que a produção pedia: sede, terreiros de secagem, lavador de grãos, tulhas para guardar o café, casa de máquinas, moinho, serraria e estábulo.

Grande terreiro de tijolos diante de uma casa térrea de paredes claras e janelas vermelhas, com mata ao fundo
O terreiro de tijolos, onde o café secava ao sol. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O terreiro de tijolos, enorme e ainda inteiro, é o primeiro impacto da visita. Era nele que os grãos eram espalhados e revirados até secar. Hoje, vazio, dá a medida do tamanho da produção que passava por ali.

Repare na disposição dos prédios em volta do terreiro. Nas fazendas de café, tudo era pensado para que o grão percorresse o menor caminho possível: da lavoura para o lavador, do lavador para o terreiro, do terreiro para a tulha e, dali, para as máquinas. Na Lageado, esse percurso ainda pode ser lido no chão e nas fachadas.

Da fazenda à universidade

Com o fim do ciclo do café, a fazenda mudou de função. Nos anos 1970, a propriedade foi cedida à Unesp, que instalou ali as faculdades ligadas à agronomia. O que era fazenda virou campo de estudo, e os prédios antigos passaram a dividir espaço com laboratórios e áreas experimentais.

A mudança acabou ajudando a preservar o conjunto. Muitas fazendas de café do interior paulista foram loteadas, demolidas ou abandonadas ao longo do século 20. Na Lageado, o uso pela universidade manteve os prédios de pé e ocupados, ainda que com outras funções. Quem visita hoje encontra a mesma terra vermelha e os mesmos tijolos, agora cercados por estudantes, pesquisadores e plantações experimentais.

Em 2011, o Condephaat tombou o conjunto arquitetônico histórico da Fazenda Lageado, depois de um pedido que tramitava desde 1986. A área histórica é apontada como o ponto turístico mais visitado da região de Botucatu, o que surpreende quem nunca ouviu falar dela.

A Casa Grande e o Museu do Café da Fazenda Lageado

A antiga sede é um casarão de dois andares, com varandas compridas, colunas claras e balaustradas trabalhadas. Ao entardecer, a fachada fica dourada, e é difícil resistir a uma foto da escadaria.

Varanda comprida da Casa Grande da Fazenda Lageado, com colunas claras e janelas de moldura vermelha
A varanda da Casa Grande. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Dentro da Casa Grande funciona o Museu do Café, com objetos, ferramentas e máquinas que contam como era o trabalho na lavoura e no beneficiamento dos grãos. O acervo ajuda a entender o caminho do café, do pé até a saca pronta para o porto. Para quem viaja com crianças, é uma forma concreta de mostrar de onde vem o café da mesa, e para quem cresceu em sítio, um passeio cheio de lembranças. Vale reservar um tempo para as varandas também: do andar de cima, a vista alcança o terreiro e os prédios de tijolo em volta.

A tulha de 1934 e a passarela suspensa

O prédio mais fotogênico da Fazenda Lageado é a tulha de tijolos aparentes com o nome da fazenda escrito na fachada e, logo acima, um medalhão com o ano de 1934. Uma passarela suspensa sai dela e a liga a outros prédios do conjunto.

Fachada de tijolos da tulha com o letreiro Fazenda Lageado e o ano de 1934, ligada a uma passarela suspensa
A tulha de 1934, com o nome da fazenda na fachada. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

A passarela de madeira, com guarda-corpo de ripas, é um dos lugares preferidos de quem visita. Caminhar por ela, entre telhados de barro, dá uma boa ideia de como a fazenda funcionava como uma pequena indústria.

Passarela de madeira com guarda-corpo levando até a tulha principal de tijolos, sob céu branco
A passarela de madeira que leva à tulha principal. Foto: Andres Buerckas / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Barracões, máquinas e implementos antigos

Espalhados pelo conjunto, barracões de madeira e tijolo guardam máquinas antigas de beneficiamento. Do lado de fora, arados, carroças, rodas de madeira e até um velho trator de esteira ficam expostos sob as árvores, como num museu a céu aberto.

Barracão de máquinas com estrutura de madeira, pilares de tijolo e equipamentos antigos de beneficiamento
O barracão de máquinas. Foto: Andres Buerckas / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O tombamento inclui até uma pequena central hidrelétrica, sinal de como a fazenda buscava ser moderna para a época. Vale andar devagar e olhar os detalhes: as portas azuis, as janelas em arco, os muros de pedra.

Arados e implementos agrícolas antigos expostos sob uma árvore, diante de um prédio de tijolos da Fazenda Lageado
Implementos agrícolas antigos expostos ao ar livre. Foto: Andres Buerckas / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Como visitar a Fazenda Lageado

A fazenda fica dentro do campus da Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, com portaria principal na Rua Dr. José Barbosa de Barros, 1780, em Botucatu. Por ser um campus em funcionamento, os horários do museu podem mudar ao longo do ano, então confirme com a FCA/Unesp antes de ir, principalmente nos fins de semana e nas férias.

Um bom roteiro é começar pelo terreiro e pela Casa Grande, entrar no Museu do Café e depois seguir até a tulha de 1934 e a passarela. Termine pelos barracões e pelos implementos expostos sob as árvores, sem pressa, olhando os detalhes das construções. Em uma ou duas horas dá para ver tudo com calma.

Use calçado confortável, porque o terreiro e as ruas internas são de tijolo e terra. A melhor luz para fotos é no fim da tarde, quando os tijolos ficam alaranjados. Respeite as áreas de pesquisa e as aulas, já que o campus segue ativo.

Para completar o passeio em Botucatu

A visita à Fazenda Lageado cabe numa manhã ou numa tarde. No resto do dia, dá para conhecer a serra de Botucatu, com a Cuesta, as cachoeiras e a rampa de voo livre. A poucos quilômetros, Pardinho tem cafés especiais plantados na Cuesta. E quem gosta de fazendas históricas pode seguir até a Fazenda Santa Maria do Monjolinho, em São Carlos, com seu palacete do café.

Atravessar um terreiro de café centenário no meio de um campus universitário é ver, num só lugar, o passado e o futuro do campo paulista.

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.