Todo mês de novembro, no aniversário de São Carlos, uma imagem antiga de São Carlos Borromeu sai em andor florido da capela da Fazenda do Pinhal e segue até a catedral da cidade. A cena lembra que foi daqui, das terras desta fazenda de café, que nasceu o município, em 1857.
Tombada como patrimônio nacional, a Fazenda do Pinhal abre as porteiras para visitas guiadas que mostram o casarão do século 19, o cafezal, a tulha e a senzala, contando a história de quem foi dono e de quem trabalhou ali.
A sesmaria que virou fazenda de café
A história começa na década de 1780, quando a família Arruda recebeu terras da Sesmaria do Pinhal, nos então chamados Sertões de Araraquara. Foi Carlos José Botelho, o Botelhão, quem de fato ocupou a área, primeiro com cana, gado e lavouras de subsistência, e quem construiu a casa-sede nas primeiras décadas do século 19.

O café chegou na década de 1840 e mudou tudo. Em 1901, a fazenda já tinha 300 mil pés de café e casas para cerca de 70 famílias de colonos.
O conde do Pinhal e a fundação de São Carlos
O filho do Botelhão, Antonio Carlos de Arruda Botelho, se tornaria o conde do Pinhal. Foi ele quem doou terras da fazenda para a construção de uma capela, ponto de partida da povoação de São Carlos do Pinhal. A família doou também a imagem de São Carlos Borromeu, que virou o padroeiro da cidade e hoje fica na capela da fazenda.
A Fazenda do Pinhal guarda a imagem do padroeiro de São Carlos, que todo novembro volta à catedral em andor florido.
O conde investiu o dinheiro do café em bancos e na ferrovia que ligava Rio Claro a São Carlos, cuja estação de 1884 ainda está de pé no centro de São Carlos.
A senzala e a memória da escravidão
A riqueza do Pinhal foi construída com trabalho escravizado. No inventário de 1862 aparecem 60 mil pés de café e 49 pessoas escravizadas, e as pesquisas da equipe da fazenda já identificaram quase 120 famílias escravizadas que pertenceram ao conde. No fim do século 19, com o fim da escravidão, chegaram os imigrantes, sobretudo italianos, que moravam nas casas da colônia.
Hoje a visita não esconde esse passado. A senzala é uma das paradas do roteiro, e os educadores falam das trajetórias das pessoas escravizadas, da resistência e do apagamento dessa memória no interior paulista, ao lado da história da família do conde e da condessa.
O que a visita mostra
Os roteiros explicam como funcionava uma fazenda de café na segunda metade do século 19. O passeio passa pelo cafezal, pelos lavadouros e pelos terreiros, onde os grãos eram lavados e secos, sob a fileira de palmeiras imperiais que é marca do lugar.

Na tulha, onde o café era armazenado, ficam as máquinas antigas de beneficiamento. A visita segue para a senzala, as casas da colônia, o pomar e os jardins, com plantas usadas na alimentação, na medicina e nos rituais da época.

A casa-sede da Fazenda do Pinhal
O ponto alto é a casa-sede, de paredes brancas e janelas escuras, cercada de jardins de buxinho e de um lago. O conjunto foi tombado pelo Condephaat em 1981, pelo Iphan em 1987 e pelo município em 2012, e passou por um restauro cuidadoso entre 2012 e 2015.

Por dentro, os salões de assoalho e forro de madeira guardam móveis e retratos da família. A condessa Anna Carolina, que teve doze filhos, cuidava da casa e de boa parte da administração da fazenda nas longas ausências do marido, como mostram as cartas trocadas pelo casal.

A fazenda guarda também altares e objetos de arte sacra entalhados em madeira, além do acervo de documentos e livros sobre a época do café.

Como agendar a visita à Fazenda do Pinhal
A Fazenda do Pinhal, hoje ligada ao Instituto Acaia, recebe visitas de quarta a sábado, sempre com agendamento pela plataforma do site oficial ou pelo telefone (16) 3377-9191. Podem ir grupos de amigos ou familiares, sem número mínimo de pessoas. Há visitas de meio período, de manhã ou à tarde, com cerca de três horas, e de dia inteiro, das 9h às 16h30, com café na chegada e almoço.

Dicas para visitar a Fazenda do Pinhal
A fazenda fica na zona rural de São Carlos, a cerca de 230 quilômetros de São Paulo, no km 4,5 da Rodovia Domingos Innocentini, a Estrada do Broa. Como a visita é feita a pé, vá de sapato fechado, calça comprida e chapéu, e leve protetor solar. Há água para beber em vários pontos do roteiro.
Na volta, vale passar pelo centro de São Carlos, onde ficam a estação de trem de 1884 e o palacete que o conde do Pinhal mandou construir no fim do século 19, hoje tombado. Assim, o passeio fecha o ciclo do café, da roça à cidade.
Um cafezal, um casarão de dois séculos e histórias que vão muito além dos donos da terra: a Fazenda do Pinhal ajuda a entender o interior paulista que o café construiu.
Você já fez uma visita guiada numa fazenda histórica do café?





