Mococa tem fazendas com a mesma família há quase 200 anos, cavalgadas e casarões do auge do café

Casa-sede branca da Fazenda Nova, em Mococa, com janelas e varanda azuis, escada externa e árvore florida em frente
A sede da Fazenda Nova, construída por volta de 1840. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Na divisa com Minas Gerais, a cerca de 266 quilômetros de São Paulo, Mococa guarda perto de 40 fazendas históricas do tempo do café, com casa-grande, capela, tulha e terreirão. Algumas nunca trocaram de dono: passaram de pais para filhos por quase dois séculos e hoje abrem as porteiras para quem quer montar a cavalo, dormir na roça e tomar café da própria lavoura.

Na cidade, o ouro do café virou casarões com fachadas ornamentadas, desenhados por arquitetos italianos no começo do século 20. É um destino para quem gosta de história, de cavalo e de mesa farta, com o jeito mineiro que a Terra do Leite herdou dos vizinhos.

Fazenda Nova, a casa que nasceu de um incêndio

A sede da Fazenda Nova foi construída por volta de 1840, depois que a casa antiga, chamada Boa Vista, pegou fogo. A família ergueu uma nova a alguns quilômetros dali, e o nome ficou. Da sede original sobrou só uma olaria. A casa nova seguiu o estilo mineiro, com paredes brancas, janelas azuis e uma varanda alta com escada externa.

Ao longo do tempo, a fazenda criou gado de corte, porcos e mulas e passou mais de 30 anos produzindo leite. Hoje os pastos deram lugar a piquetes de cavalos, bosques de eucalipto e mata nativa, e a propriedade está com a sétima geração da mesma família.

Em Mococa, a Fazenda Nova está há quase 200 anos com a mesma família e organiza cavalgadas desde 1983.

Cavalgadas pelas fazendas de Mococa

A Fazenda Nova organiza passeios a cavalo guiados desde 1983, de uma hora até uma semana, para cavaleiros de todos os níveis. As trilhas passam por bosques, estradinhas de terra entre as plantações, pastos e um pequeno rio. Fora da porteira, o caminho segue por cafezais, canaviais, laranjais e pelas sedes de outras fazendas históricas da região.

Os passeios longos têm dois roteiros: um pelas fazendas antigas e outro por áreas de natureza mais selvagem, com cachoeiras. Quem quer viver a rotina da roça pode fazer a lida de campo, trabalhando com o gado. A fazenda também dá aulas de equitação para iniciantes, recebe hóspedes na antiga senzala reformada e tem programas de observação de aves. Tudo com agendamento pelos contatos do site da fazenda.

Fazenda Santo Antônio da Água Limpa

A cerca de 20 quilômetros da cidade, no bairro do Igaraí, a Fazenda Santo Antônio da Água Limpa está com a família Pereira Lima desde 1822. São 444 hectares, com parte em Mata Atlântica, e foi uma das pioneiras no café orgânico da região. Hoje o destaque é o café florestal, plantado no meio de uma agrofloresta e premiado pelo sabor e pela textura aveludada.

Varanda da sede da Fazenda Santo Antônio da Água Limpa, em Mococa, com rede amarela, cadeiras de balanço e vasos de plantas
A varanda da Fazenda Santo Antônio da Água Limpa. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Desde 2009 a fazenda funciona como hotel, com poucos quartos e chalés. O hóspede faz degustação de café, cavalgada, trilha pela agrofloresta e pela mata, banho de cachoeira, passeio de canoa e caiaque e aula de culinária com comida feita no fogão a lenha. Há ainda piscina com água de mina e muita ave para observar.

Fazenda Buracão

A Fazenda Buracão era parte da antiga Fazenda Nova e foi vendida no fim dos anos 1960, depois de uma partilha. Em 1997 virou pousada, e os hóspedes ficam na própria casa-sede. As terras têm cinco açudes, vegetação de transição entre cerrado e Mata Atlântica e uma trilha que passa por uma trincheira paulista da Revolução de 1932.

Pequena cachoeira descendo em véu sobre pedras escuras, cercada de mato e bambus
Cachoeira na Fazenda Buracão. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A fazenda também tem história no cinema: em 1963, recebeu as gravações externas do filme O Cabeleira. Para o lazer, há passeio a cavalo, cachoeira, tirolesa, prainha e trilha, e a cozinha segue a tradição mineira, com pão de queijo, queijo minas e doce de leite.

Os casarões do centro de Mococa

O dinheiro do café ficou à mostra no centro histórico. Os casarões do início do século 20, em estilo neoclássico e art nouveau, foram desenhados por arquitetos italianos e se concentram em volta da Praça Marechal Deodoro. Vale caminhar sem pressa e olhar para cima, onde estão os ornamentos em relevo das fachadas.

Fachada de casarão do centro histórico de Mococa com ornamentos em relevo em forma de leque e janelas de madeira
Casarão do início do século 20 no centro histórico. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Um dos prédios mais bonitos é a Casa de Cultura Rogério Cardoso, construída em 1929 pelo arquiteto italiano Lorenzo Paroli para abrigar uma escola profissional. Restaurada, ela reabriu em 2010 com três museus: o de Artes Plásticas Quirino da Silva, o Histórico de Mococa e o de Arte Sacra. Funciona de segunda a sexta, das 8h às 17h, e aos sábados, das 9h às 13h.

Fachada amarela da Casa de Cultura Rogério Cardoso, com janelas em arco, colunas e a inscrição da antiga escola profissional
A Casa de Cultura Rogério Cardoso, prédio de 1929. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Bruno Giorgi e a Matriz

Na Praça Marechal Deodoro, entre palmeiras e o coreto, fica a escultura A Mulher de Mococa, de Bruno Giorgi. O artista nasceu em Mococa em 1905 e ficou famoso por Os Candangos, a escultura em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília.

Escultura de bronze de mulher sentada com os braços sobre os joelhos na Praça Marechal Deodoro, em Mococa, com palmeiras e coreto ao fundo
A Mulher de Mococa, de Bruno Giorgi, na Praça Marechal Deodoro. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Perto dali, a Igreja Matriz de São Sebastião é um dos cartões-postais da cidade, com vitrais coloridos e imagens sacras no interior.

Imagem de Santo Antônio com o Menino Jesus no colo e lírios na mão, ao lado de um vitral colorido
Imagem de Santo Antônio no interior da Igreja Matriz. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Dicas para visitar Mococa

Mococa faz parte desde 1979 do Circuito Café com Leite, que une cidades paulistas e mineiras. As fazendas recebem visitantes com reserva ou agendamento, então combine antes o passeio a cavalo ou a hospedagem. Aos domingos de manhã, a Praça Santa Cecília tem uma feira tradicional de artesanato e comida.

Leve roupa confortável e calça comprida para cavalgar. Dá para emendar a viagem com Cássia dos Coqueiros, vizinha, onde fica a Cachoeira do Itambé, de 84 metros.

Café no pé, cavalo arreado cedinho e casarões que contam a época de ouro do café: em Mococa, a história ainda mora nas fazendas.

Você toparia uma cavalgada de vários dias entre fazendas antigas?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.