Pico do Lopo: a trilha do “Gigante Adormecido” em Joanópolis, na divisa de SP com Minas

Pico do Lopo ao entardecer, visto da Pedra das Flores, com flores vermelhas e capim na rocha em primeiro plano
O Pico do Lopo visto da Pedra das Flores. Foto: Gabrielribeirov / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Quem chega a Joanópolis no fim da tarde e olha para o horizonte vê um homem deitado. A cabeça, o peito, os pés: o contorno da serra lembra mesmo um gigante dormindo. O ponto mais alto desse gigante é o Pico do Lopo, uma montanha de cerca de 1.725 metros na divisa de São Paulo com Minas Gerais, e chegar lá em cima é mais fácil do que parece.

A trilha é curta, cabe numa manhã e entrega uma das vistas mais bonitas da Mantiqueira paulista: um mar de morros, represas brilhando lá embaixo e, nos dias certos, o vale coberto de neblina enquanto o sol nasce.

O Gigante Adormecido

A Serra do Lopo separa Joanópolis, no lado paulista, de Extrema, no lado mineiro. Vista de longe, principalmente de Joanópolis, a crista da serra forma a silhueta que deu o apelido de Gigante Adormecido. O Pico do Lopo é um dos pontos mais altos desse contorno.

Silhueta azulada da Serra do Lopo contra o céu laranja do pôr do sol, com o contorno do Gigante Adormecido
A silhueta do Gigante Adormecido, vista de Joanópolis. Foto: Cowilliam / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada

O melhor momento para ver o gigante de baixo é o entardecer, quando a serra fica escura e recortada contra o céu laranja. Dá para fotografar da própria cidade, sem subir nada. Mas quem quer conhecer o gigante de perto precisa encarar a trilha.

Como chegar ao Pico do Lopo

O pico fica a poucos quilômetros do centro de Joanópolis, e o acesso pelo lado paulista é feito por estrada de terra, seguida de trilha. Também dá para subir pelo lado de Extrema, que é o caminho mais usado pelos trilheiros mineiros. Os dois lados se encontram lá em cima.

A estrada de terra fica enlameada e escorregadia nos dias de chuva, e alguns trechos pedem carro alto. Prefira os meses secos, de abril a setembro, quando a estrada está firme e o céu costuma estar mais limpo. Joanópolis fica a cerca de duas horas de São Paulo.

Para quem quer ver o nascer do sol, o mais prático é dormir na cidade ou numa das pousadas da zona rural na noite anterior. Assim dá para sair de madrugada, chegar à base da trilha ainda no escuro e começar a subida sem pressa. Quem vem de São Paulo no mesmo dia costuma preferir o pôr do sol, que permite fazer a viagem com calma pela manhã e subir no meio da tarde.

Como é a trilha do Pico do Lopo

A subida costuma levar cerca de 1h30, num ritmo tranquilo, e o passeio todo, com paradas, fica entre três e quatro horas. A trilha é considerada fácil para quem já tem algum costume de caminhar, mas tem trechos íngremes, com pedra e terra solta. Tênis com boa aderência faz diferença.

No caminho, a vegetação muda conforme a altitude. A mata vai dando lugar ao campo de altitude, com capim, bromélias e flores nativas que crescem direto na rocha. Entre elas está o brinco-de-princesa, de flores vermelhas e roxas penduradas, e o manacá-de-cheiro. A área faz parte da APA Fernão Dias, uma área de proteção ambiental.

Flores vermelhas e roxas de brinco-de-princesa penduradas entre folhas verdes na trilha
Brinco-de-princesa, uma das flores nativas da trilha. Foto: João D’Andretta / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Um dos pontos mais fotografados é a Pedra das Flores, um afloramento de rocha coberto de plantas, de onde se vê o pico de frente, pontudo e verde.

No cume, grandes pedras arredondadas servem de mirante. De lá, a vista se abre para os dois estados: os morros verdes, as estradas de terra, as represas da região e, ao longe, outras serras da Mantiqueira. É um bom lugar para sentar, recuperar o fôlego e comer o lanche.

Repare também no próprio relevo da Serra do Lopo, que segue de um lado e de outro do pico, com outras pedras e cristas. Em dia claro, dá para entender, lá de cima, por que de longe tudo isso parece um corpo deitado.

Vista do alto do Pico do Lopo, com grandes pedras arredondadas em primeiro plano e o vale verde de morros e represa ao fundo
A vista do alto, sobre o vale e as represas. Foto: João D’Andretta / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Nascer e pôr do sol no Pico do Lopo

O Pico do Lopo é famoso entre os trilheiros pelo nascer do sol. Quem sobe de madrugada, com lanterna, chega ao topo a tempo de ver o céu mudar de cor e o sol aparecer sobre o vale, muitas vezes coberto por uma camada de neblina que parece um mar.

Sol nascendo no horizonte sobre a neblina do vale, visto do Pico do Lopo, com nuvens douradas no céu
O sol nascendo sobre o vale. Foto: Ederson Ladeira da Silva / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada

O pôr do sol também vale a subida. O céu fica dourado, as serras se empilham em camadas azuladas e as represas refletem a última luz do dia. Se for nesse horário, desça com lanterna e não deixe para começar a descida no escuro total.

Céu azul e dourado sobre camadas de serras e uma represa no fim de tarde
Camadas de serra e represa no fim de tarde. Foto: Ederson Ladeira da Silva / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Há quem acampe ou fique até a noite para ver as estrelas. Com o céu limpo, as luzes das cidades do vale se acendem lá embaixo, como um tapete amarelo, enquanto as estrelas tomam conta do céu.

Céu estrelado sobre as luzes amarelas de cidades no vale, vistas à noite do Pico do Lopo
As luzes das cidades do vale sob o céu estrelado. Foto: Ederson Ladeira da Silva / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Dicas para subir o Pico do Lopo

Leve água, lanche, protetor solar e um agasalho, porque no alto venta e a temperatura cai rápido, principalmente de madrugada e no inverno. Se for subir para o nascer do sol, a lanterna é obrigatória, de preferência de cabeça.

Não vá sozinho se não conhece o caminho. Em dias de neblina, a trilha pode confundir, e o celular nem sempre tem sinal. Se nunca fez a trilha, vale contratar um guia local ou ir com quem já conhece. E traga o lixo de volta: a área é de proteção ambiental.

Joanópolis, a cidade do lobisomem

Lá embaixo, Joanópolis tem fama de ser a terra do lobisomem. A cidade foi fundada em 1878, e os causos contam que um dos fundadores, Anselmo Caparica, andava pelas ruas à noite e acabou ganhando fama de virar bicho. A história pegou, e hoje o lobisomem aparece em festas, lojas e na conversa dos moradores, que contam os causos com gosto para quem pergunta. Depois da trilha, vale uma volta pela praça da matriz, no centro, para um café antes de pegar a estrada.

Para completar o fim de semana, a cidade tem a Cachoeira dos Pretos, com 154 metros de queda e tirolesa, e uma rampa de voo livre com vista para os mesmos morros que se veem do pico. E quem pegou gosto por montanha pode encarar um desafio maior no Pico dos Marins, em Piquete.

Ver o sol nascer de cima do gigante, com o vale ainda dormindo embaixo, é daqueles momentos que fazem a madrugada valer cada passo.

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.