Quem chega a Joanópolis no fim da tarde e olha para o horizonte vê um homem deitado. A cabeça, o peito, os pés: o contorno da serra lembra mesmo um gigante dormindo. O ponto mais alto desse gigante é o Pico do Lopo, uma montanha de cerca de 1.725 metros na divisa de São Paulo com Minas Gerais, e chegar lá em cima é mais fácil do que parece.
A trilha é curta, cabe numa manhã e entrega uma das vistas mais bonitas da Mantiqueira paulista: um mar de morros, represas brilhando lá embaixo e, nos dias certos, o vale coberto de neblina enquanto o sol nasce.
O Gigante Adormecido
A Serra do Lopo separa Joanópolis, no lado paulista, de Extrema, no lado mineiro. Vista de longe, principalmente de Joanópolis, a crista da serra forma a silhueta que deu o apelido de Gigante Adormecido. O Pico do Lopo é um dos pontos mais altos desse contorno.

O melhor momento para ver o gigante de baixo é o entardecer, quando a serra fica escura e recortada contra o céu laranja. Dá para fotografar da própria cidade, sem subir nada. Mas quem quer conhecer o gigante de perto precisa encarar a trilha.
Como chegar ao Pico do Lopo
O pico fica a poucos quilômetros do centro de Joanópolis, e o acesso pelo lado paulista é feito por estrada de terra, seguida de trilha. Também dá para subir pelo lado de Extrema, que é o caminho mais usado pelos trilheiros mineiros. Os dois lados se encontram lá em cima.
A estrada de terra fica enlameada e escorregadia nos dias de chuva, e alguns trechos pedem carro alto. Prefira os meses secos, de abril a setembro, quando a estrada está firme e o céu costuma estar mais limpo. Joanópolis fica a cerca de duas horas de São Paulo.
Para quem quer ver o nascer do sol, o mais prático é dormir na cidade ou numa das pousadas da zona rural na noite anterior. Assim dá para sair de madrugada, chegar à base da trilha ainda no escuro e começar a subida sem pressa. Quem vem de São Paulo no mesmo dia costuma preferir o pôr do sol, que permite fazer a viagem com calma pela manhã e subir no meio da tarde.
Como é a trilha do Pico do Lopo
A subida costuma levar cerca de 1h30, num ritmo tranquilo, e o passeio todo, com paradas, fica entre três e quatro horas. A trilha é considerada fácil para quem já tem algum costume de caminhar, mas tem trechos íngremes, com pedra e terra solta. Tênis com boa aderência faz diferença.
No caminho, a vegetação muda conforme a altitude. A mata vai dando lugar ao campo de altitude, com capim, bromélias e flores nativas que crescem direto na rocha. Entre elas está o brinco-de-princesa, de flores vermelhas e roxas penduradas, e o manacá-de-cheiro. A área faz parte da APA Fernão Dias, uma área de proteção ambiental.

Um dos pontos mais fotografados é a Pedra das Flores, um afloramento de rocha coberto de plantas, de onde se vê o pico de frente, pontudo e verde.
No cume, grandes pedras arredondadas servem de mirante. De lá, a vista se abre para os dois estados: os morros verdes, as estradas de terra, as represas da região e, ao longe, outras serras da Mantiqueira. É um bom lugar para sentar, recuperar o fôlego e comer o lanche.
Repare também no próprio relevo da Serra do Lopo, que segue de um lado e de outro do pico, com outras pedras e cristas. Em dia claro, dá para entender, lá de cima, por que de longe tudo isso parece um corpo deitado.

Nascer e pôr do sol no Pico do Lopo
O Pico do Lopo é famoso entre os trilheiros pelo nascer do sol. Quem sobe de madrugada, com lanterna, chega ao topo a tempo de ver o céu mudar de cor e o sol aparecer sobre o vale, muitas vezes coberto por uma camada de neblina que parece um mar.

O pôr do sol também vale a subida. O céu fica dourado, as serras se empilham em camadas azuladas e as represas refletem a última luz do dia. Se for nesse horário, desça com lanterna e não deixe para começar a descida no escuro total.

Há quem acampe ou fique até a noite para ver as estrelas. Com o céu limpo, as luzes das cidades do vale se acendem lá embaixo, como um tapete amarelo, enquanto as estrelas tomam conta do céu.

Dicas para subir o Pico do Lopo
Leve água, lanche, protetor solar e um agasalho, porque no alto venta e a temperatura cai rápido, principalmente de madrugada e no inverno. Se for subir para o nascer do sol, a lanterna é obrigatória, de preferência de cabeça.
Não vá sozinho se não conhece o caminho. Em dias de neblina, a trilha pode confundir, e o celular nem sempre tem sinal. Se nunca fez a trilha, vale contratar um guia local ou ir com quem já conhece. E traga o lixo de volta: a área é de proteção ambiental.
Joanópolis, a cidade do lobisomem
Lá embaixo, Joanópolis tem fama de ser a terra do lobisomem. A cidade foi fundada em 1878, e os causos contam que um dos fundadores, Anselmo Caparica, andava pelas ruas à noite e acabou ganhando fama de virar bicho. A história pegou, e hoje o lobisomem aparece em festas, lojas e na conversa dos moradores, que contam os causos com gosto para quem pergunta. Depois da trilha, vale uma volta pela praça da matriz, no centro, para um café antes de pegar a estrada.
Para completar o fim de semana, a cidade tem a Cachoeira dos Pretos, com 154 metros de queda e tirolesa, e uma rampa de voo livre com vista para os mesmos morros que se veem do pico. E quem pegou gosto por montanha pode encarar um desafio maior no Pico dos Marins, em Piquete.
Ver o sol nascer de cima do gigante, com o vale ainda dormindo embaixo, é daqueles momentos que fazem a madrugada valer cada passo.





