Cruzeiro SP tem trem turístico até o pé da Mantiqueira, rotunda ferroviária e o túnel que foi campo de batalha em 1932

Interior do Grande Túnel da Mantiqueira, em Cruzeiro SP, com trilhos e paredes cobertas de musgo e a luz da saída ao fundo
O Grande Túnel da Mantiqueira, de 1882, na divisa com Minas. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Uma locomotiva vermelha deixa a estação central, atravessa um pequeno túnel e para numa estação amarela no pé da serra. O passeio dura cerca de uma hora e meia e acontece numa cidade que cresceu em volta dos trilhos e que viveu, em 1932, o combate mais duro da Revolução Constitucionalista. Cruzeiro SP fica a 220 km da capital, na divisa com Minas Gerais, e junta história, ferrovia e Mantiqueira num mesmo fim de semana.

O próprio nome da cidade vem de um marco em forma de cruz que dividia São Paulo e Minas. Desde 2024, uma lei federal reconhece Cruzeiro como Capital da Revolução Constitucionalista.

Expresso Mantiqueira, o trem turístico de Cruzeiro SP

O Expresso Mantiqueira é operado pela ABPF, a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, por meio da regional Sul de Minas. As primeiras viagens com passageiros aconteceram em julho de 2025, depois do restauro da locomotiva e do vagão.

Locomotiva diesel vermelha 3507 sobre os trilhos perto da Estação Rufino de Almeida, em Cruzeiro SP, com morros verdes ao fundo
A locomotiva 3507, que puxa o Expresso Mantiqueira. Foto: Monimach / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O trem sai da Estação Central de Cruzeiro, inaugurada em 1878, e segue por cerca de 6 km até a Estação Rufino de Almeida, de 1902, no pé da Serra da Mantiqueira. No caminho, deixa a área urbana, passa por uma região verde e atravessa um pequeno túnel logo antes da chegada.

Pequena estação amarela e vermelha com placa de madeira escrita Estação Rufino de Almeida, ao pé de um morro
A Estação Rufino de Almeida, de 1902, fim do passeio. Foto: Monimach / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

São 12 km ida e volta, em cerca de 1h30: meia hora de ida, meia hora de parada na estação e meia hora de volta. Quem puxa o comboio é a locomotiva diesel Alco 3507, fabricada em 1958, com um carro de passageiros do tipo jardineira.

Os passeios acontecem em datas específicas, que a ABPF divulga no site do Expresso Mantiqueira. Antes de planejar a viagem, confira a próxima saída e faça a reserva com antecedência.

A rotunda, onde as locomotivas faziam a volta

Outro símbolo ferroviário de Cruzeiro SP é a rotunda. O galpão em forma de meia-lua, de 1930, servia para a manutenção e a manobra das locomotivas, e chegou a abrigar até 15 máquinas.

Fachada envidraçada e curva do Centro Cultural Rotunda, com plantas na frente
O Centro Cultural Rotunda, antiga oficina de locomotivas. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Depois de anos de abandono, o prédio foi transformado em centro cultural nos anos 1990. Para quem gosta de trem, é uma visita que completa o passeio do Expresso Mantiqueira: dá para entender como funcionava a parte pesada da ferrovia, longe das plataformas de passageiros. Hoje o Centro Cultural Rotunda tem exposição de fotografias e réplicas de locomotivas, abriga a biblioteca municipal e recebe uma programação cultural variada. Confira os horários com a prefeitura antes de ir.

O túnel da Mantiqueira e a batalha de 1932 em Cruzeiro SP

O Grande Túnel da Mantiqueira foi inaugurado em 1882 e fica na divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Faz parte da antiga ferrovia Minas & Rio, a mesma do Expresso Mantiqueira, e ganhou um lugar na história do país cinquenta anos depois.

Na Revolução Constitucionalista de 1932, o túnel e a serra em volta viraram posição estratégica. As tropas paulistas tentavam barrar o avanço das forças do governo federal pela divisa com Minas, e o combate ali durou cerca de uma semana, considerado o front mais intenso do conflito.

O fim da revolução também foi decidido em Cruzeiro. O armistício foi assinado em 2 de outubro de 1932 na Escola Estadual Dr. Arnolfo Azevedo, construída em 1913, que durante a guerra abrigou tropas paulistas e ainda funciona como escola.

Fachada creme e amarela da Escola Estadual Dr. Arnolfo Azevedo, com janelas gradeadas e ornamentos, sob céu azul
A escola onde foi assinado o armistício de 1932. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A ABPF tem o plano de, no futuro, levar o trem além de Rufino de Almeida e atravessar o túnel até Passa Quatro, em Minas. Por enquanto, o trecho é desativado. Se o projeto avançar, o passeio vai cruzar justamente o túnel que foi campo de batalha, ligando de novo os dois estados pelos trilhos, como no tempo em que os trens de passageiros ligavam o Vale do Paraíba às cidades do sul de Minas, do outro lado da serra.

Natureza na Mantiqueira

Cruzeiro fica entre a Mantiqueira e a Bocaina, e a natureza está perto do centro. A Cachoeira Cantagalo, no Rio Brejuda, forma piscinas naturais entre pedras grandes e mata.

Rio de água clara correndo entre pedras grandes e mata na Cachoeira Cantagalo, em Cruzeiro SP
A Cachoeira Cantagalo, no Rio Brejuda. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Para quem gosta de aventura, a Gruta Reino Encantado tem fendas nas rochas, quedas d’água e um rio que passa por baixo da terra e volta nas cachoeiras. É lugar de rapel, e a recomendação é ir com guia local e equipamento de segurança.

Pequena queda d'água entre rochas e plantas na Gruta Reino Encantado
A Gruta Reino Encantado. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Quem quer subir mais alto pode encarar o Pico dos Marins, uma das trilhas mais difíceis da Mantiqueira paulista, que o guia oficial do governo do estado registra no município de Cruzeiro, com a trilha saindo de Piquete. Mais perto, o Pico Focinho do Cão tem trilha e vista panorâmica, e o Mirante Santo Cruzeiro, de 1963, mostra a cidade e as vizinhas do alto.

Outros passeios em Cruzeiro SP

O Museu Major Novaes ocupa a antiga sede da Fazenda Boa Vista, de 1840, e guarda dezenas de objetos da época. A Igreja de Santa Cecília é de 1896, e a Igreja Matriz Imaculada Conceição, de 1935, é uma das maiores da cidade. Para quem quer dormir no meio do verde, a Fazenda Pedra Branca tem hospedagem, restaurante de comida caseira e uma grande área preservada.

No mês de julho, a cidade costuma lembrar a Revolução de 1932 com eventos e roteiros históricos, uma boa época para quem gosta de história.

Como montar o passeio

O ideal é marcar a viagem num dia de saída do trem: de manhã, o Expresso Mantiqueira; à tarde, a rotunda, a escola do armistício e o museu. No dia seguinte, cachoeira ou trilha. A cidade combina com outras do Vale do Paraíba, como Cachoeira Paulista e Lorena.

Para mais trens turísticos, veja os passeios de trem em SP e as estações históricas do interior.

Entre a locomotiva vermelha, a rotunda e o túnel que guardou soldados em 1932, Cruzeiro mostra que os trilhos ainda contam a história da cidade.

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.