Cunha, no Vale do Paraíba paulista, tem 22.110 habitantes, um campo de lavanda florido o ano todo, um forno japonês de cerâmica que queima a 1.400 graus e uma montanha de 1.840 metros na divisa com o Rio de Janeiro. A cidade é a Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura, título dado por lei federal em 2022. Ali também há cachoeiras, festivais e a maior produção de pinhão do estado.
O visitante encontra ateliês de cerâmica nas ruas do centro, um parque estadual de serra com trilhas até cachoeiras e uma trilha curta até um mirante com vista para o mar. Tudo isso fica na Serra da Bocaina, na divisa com o Rio de Janeiro.
O forno japonês que trouxe a cerâmica de alta temperatura
O forno em questão se chama noborigama, palavra japonesa que junta “noboru”, subir, e “gama”, forno. As câmaras de queima são construídas em aclive, no terreno inclinado, e o fogo é alimentado por etapas, chegando a cerca de 1.400 graus. Por isso a cerâmica feita ali é chamada de cerâmica de alta temperatura.
O primeiro forno do tipo em Cunha nasceu em 1975. Segundo o blog Jacuhy, quatro ceramistas chegaram à cidade em 20 de abril daquele ano, no aniversário municipal: os japoneses Mieko e Toshiyuki Ukeseki, o português Alberto Cidraes e os irmãos Vicente e Antônio Cordeiro. Escolheram um antigo matadouro abandonado, e a primeira queima foi em dezembro de 1975.
O primeiro forno noborigama de Cunha foi montado em 1975 num antigo matadouro municipal.
A região já tinha a tradição das paneleiras, que faziam louça de uso diário com técnicas de origem indígena, como Nhá Núncia e dona Dita Paneleira. Argila, eucalipto para a lenha, feldspato e caulim para o esmalte eram fáceis de achar por ali.
Como funciona uma abertura de fornada
No fim dos anos 1980, os ceramistas Gilberto Jardineiro e Kimiko Suenaga passaram a fazer eventos de abertura de fornada. Em vez de vender por intermediários, eles abriram as portas do forno para o público ver as peças saírem, e isso atraiu compradores direto para os ateliês e ajudou a criar o turismo da cerâmica.
Um forno noborigama grande pode levar de 1.500 a 2.000 peças por queima, segundo o Sebrae. As câmaras são interligadas, e o fogo passa de uma para outra por bocas laterais. Segundo o portal O Antagonista, o Ateliê Suenaga e Jardineiro faz a queima a cada dois meses e abre a fornada ao público em datas marcadas.
Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura
A Lei federal 14.363, de 2022, deu a Cunha o título de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura. A cidade tem mais de 20 ateliês espalhados pelo centro, com peças de autor, e a Casa do Artesão reúne ceramistas locais numa associação.
Entre os nomes conhecidos estão o Ateliê Suenaga e Jardineiro, que tem forno noborigama de quatro câmaras, e o Ateliê do Augusto e do Leí, com o maior forno noborigama da região, segundo um guia de turismo. A tradição da queima em forno japonês segue no lugar onde começou.

Lavandário, o campo de lavanda que virou símbolo da cidade
O Lavandário é um campo de lavanda numa propriedade rural no alto da serra, com vista panorâmica dos canteiros roxos e da paisagem da região. Segundo o blog Carpe Mundi, foi criado pela empresária Fernanda Freire, que queria “um pedaço da Provença” na própria terra, e desde 2013 é uma das principais atrações da cidade, segundo o blog Buson.
O plantio ocupa cerca de 15 campos de futebol e tem mais de 40 mil pés de lavanda, das espécies Lavandula dentata e Lavandula stoechas, escolhidas por se adaptarem ao clima local. Graças a um sistema de plantio e poda rotativo, há lavanda em flor nos 365 dias do ano, com mais de 10 mil pés floridos ao mesmo tempo. A luz da manhã e do fim de tarde realça o roxo.
O Lavandário de Cunha tem mais de 40 mil pés de lavanda, e mais de 10 mil estão sempre em flor.
No local há mirantes de madeira, demonstrações de destilação de óleo essencial e uma loja em estilo provençal. A região é de clima ameno e noites frias, o que favorece a planta.

Pedra da Macela, a montanha de 1.840 metros
A Pedra da Macela fica na Serra do Mar, na divisa entre Cunha e Paraty, no Rio de Janeiro, e é o ponto mais alto da região, com 1.840 metros, segundo a Wikipédia. Em dias claros, o alto mostra Paraty, o litoral, parte da Ilha Grande e as montanhas da Serra da Mantiqueira, entre elas o Pico dos Marins.
A trilha até o topo tem cerca de 2 quilômetros e leva cerca de uma hora, com subida forte. O nome vem da macela, arbusto que cobre as encostas e dá flores amarelas entre março e maio. De maio a agosto, o vento favorece o voo livre a partir de uma rampa natural abaixo do cume. Outra pedra de vista no interior paulista é a Pedra Grande, em Atibaia.

A Pedra da Macela tem 1.840 metros e fica na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro.
Cachoeiras no Parque Estadual da Serra do Mar
O Núcleo Cunha do Parque Estadual da Serra do Mar tem trilhas que levam a cachoeiras, como a do Pocinho, boa para um banho depois da caminhada. O relevo acidentado favorece as quedas nos rios Bonito, Ipiranga e Paraibuna, segundo o guia de áreas protegidas do estado, e o parque é procurado para caminhadas e passeios de bicicleta.

Pinhão, festivais e uma cidade de Fuscas
Cunha é a maior produtora de pinhão do estado, e o Festival do Pinhão acontece desde 2001. Em julho, o Festival de Inverno Acordes na Serra, criado em 1994, ocupa a cidade, e a Festa do Divino Espírito Santo é no terceiro domingo do mês. Segundo a Wikipédia, Cunha também tem a maior concentração de Fuscas do Brasil.
A cidade foi fundada em 19 de março de 1724, virou vila em 1785 e cidade em 1858. Viveu do ouro, do café e, hoje, do pinhão e da cerâmica. Perto dali, Bananal guarda fazendas do tempo do café. Cunha é um lugar real, com ateliês abertos, montanha, cachoeiras e festas o ano todo.
Você já viu uma fornada de cerâmica sendo aberta?


