Quem chega à estação de Mairinque pela primeira vez costuma parar e olhar para cima. As torres finas, com detalhes verdes, sobem acima de um corpo arredondado de concreto, como se a estação tivesse saído de um livro de ficção científica do começo do século 20. Não é exagero: quando ficou pronta, em 1907, ela foi considerada a primeira estrutura de concreto armado do estado de São Paulo.
Mairinque fica a cerca de 70 km da capital, ao lado de São Roque, e nasceu por causa dos trilhos. A cidade guarda a estação, uma vila ferroviária do fim do século 19 e, no meio dos morros, os túneis abandonados de um antigo trecho da ferrovia. É um passeio curto, ótimo para quem gosta de trem e de arquitetura.
A estação de Mairinque, uma ousadia de concreto
A estação foi projetada por Victor Dubugras, arquiteto nascido na França que fez carreira na Argentina e em São Paulo, e foi construída entre 1906 e 1907 para a Estrada de Ferro Sorocabana. Na época, a maioria das estações ainda era feita de tijolo e madeira. Dubugras usou concreto armado para criar formas curvas, marquises leves e torres que lembram faróis.

O resultado é considerado um dos principais exemplos do art nouveau no Brasil. Por isso, a estação de Mairinque é tombada tanto pelo Condephaat, o órgão estadual, quanto pelo IPHAN, o federal. Repare nos detalhes: a marquise que protege a plataforma, o corpo arredondado e o desenho das torres, que mudam de aparência conforme o ângulo.
A estação segue no meio de um pátio ferroviário ativo, por onde passam trens de carga. Por isso, observe sempre de áreas permitidas e confirme com a prefeitura se há visitação interna ou guiada.
Quem foi Victor Dubugras
Victor Dubugras nasceu na França em 1868, cresceu na Argentina e chegou a São Paulo no fim do século 19, onde se tornou um dos arquitetos mais inventivos da época. Enquanto muitos colegas repetiam modelos europeus, ele experimentava formas novas, misturava referências e usava materiais pouco comuns para o período.
Além da estação, Dubugras deixou sua marca em outros pontos do estado, como o Largo da Memória, no centro de São Paulo, e os monumentos do antigo Caminho do Mar, na Serra do Mar. Conhecer a obra dele em Mairinque é uma boa porta de entrada para entender por que seu nome aparece em tantos livros de arquitetura brasileira.
A vila ferroviária em volta da estação de Mairinque
Mairinque nasceu como um ponto de encontro de linhas da Sorocabana, e em volta da estação surgiu uma vila ferroviária, fundada em 1890. Parte dela ainda está de pé: casas de funcionários, oficinas, armazém e até um horto florestal.

Caminhar pelas ruas da vila é ver como funcionava uma cidade feita para os trilhos, com as casas alinhadas perto do trabalho. No pátio, vagões antigos e locomotivas paradas completam o cenário, e o vaivém dos trens de carga lembra que a ferrovia ainda está viva. Para muitos moradores, a ligação com os trilhos é de família: avôs e pais trabalharam nas oficinas, na manutenção da via ou nas próprias estações, e essa memória ainda aparece nas conversas pela cidade.
Os túneis do antigo traçado da Sorocabana
Um dos segredos de Mairinque fica fora do centro. O antigo traçado entre Itu e Mairinque, um trecho da Sorocabana que deixou de ser usado, ainda corta os morros da região. Onde passavam os trilhos, hoje há uma estrada de terra que atravessa campos e matas e passa por túneis de pedra, alguns cobertos de vegetação.

Perto da antiga Estação Moreiras, por exemplo, uma boca de túnel aparece no meio do mato, com a luz do outro lado lembrando o caminho dos trens. Mais adiante, restos de estações como a Dona Catarina, com suas caixas d’água, ajudam a reconstruir o percurso.

O trajeto é procurado por ciclistas e caminhantes que gostam de história ferroviária, mas não é uma trilha oficial com estrutura. Vá acompanhado, leve lanterna para os túneis, água e celular carregado, e evite os dias de chuva, quando a terra fica escorregadia. Alguns trechos podem passar perto de propriedades rurais, então respeite porteiras e cercas e não entre onde houver aviso de proibição.
O que mais fazer em Mairinque
Além da ferrovia, Mairinque tem paisagens de morros, com trechos de cerrado e mata que mudam de cor ao longo do ano. Nos dias de céu limpo, o nascer e o pôr do sol sobre os morros rendem boas fotos, e as estradas rurais são tranquilas para um passeio de carro sem pressa.

A cidade também é vizinha de São Roque, com seu roteiro do vinho, adegas e restaurantes, o que facilita juntar os dois passeios no mesmo dia: a estação pela manhã e o almoço numa das vinícolas de São Roque.

Roteiro de meio dia na estação de Mairinque
Comece pela estação e pelo pátio, de preferência pela manhã, quando a luz realça as torres. Depois, caminhe pela vila ferroviária e, se estiver bem preparado, siga para um trecho do antigo traçado e seus túneis. Termine o dia em São Roque para o almoço ou um café.
Para fotografar a estação, vale chegar cedo ou no fim da tarde, quando a luz baixa realça as curvas do concreto e o verde das torres. Ângulos de baixo para cima destacam as torres contra o céu, e de longe, com os trilhos em primeiro plano, dá para mostrar a estação no meio do pátio. Lembre que o pátio tem circulação de trens: fique sempre fora da linha e respeite as áreas restritas.
Quem gosta de trem pode montar um roteiro maior: em Itu, na outra ponta do antigo traçado, há o passeio do Trem Republicano, e em Sorocaba o Trem dos Operários. Veja também a nossa lista de estações históricas do interior e os passeios de trem em SP.
Ficar diante de uma estação que parecia futurista em 1907 e, no mesmo dia, atravessar um túnel por onde não passa mais trem é o tipo de passeio que mostra como os trilhos desenharam o interior paulista.




