Fazenda Ipanema tem a Real Fábrica de Ferro de 1810, represa e casa que hospedou Dom Pedro II

Ruínas dos altos-fornos de pedra e tijolo da Real Fábrica de Ferro na Fazenda Ipanema, com torre quadrada e chaminé, sob céu azul
Os fornos da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, em Iperó. Foto: Rubens Hardt / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

A cerca de 120 quilômetros de São Paulo e a uns 15 quilômetros de Sorocaba, uma floresta protegida guarda as ruínas de onde saiu boa parte do ferro do Brasil Império. É a Fazenda Ipanema, em Iperó, sede da antiga Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema, criada em 1810 e considerada a primeira siderúrgica a funcionar de forma contínua no país.

Hoje o lugar faz parte da Floresta Nacional de Ipanema, administrada pelo ICMBio, e virou um passeio que junta história e natureza: altos-fornos de pedra, prédios de arcos, a casa onde Dom Pedro II se hospedou, uma represa e trilhas pela mata até o alto de um morro.

Portal de entrada de tijolos com duas torres e ameias, como um castelo, entre árvores, na entrada da Fazenda Ipanema
O portal de entrada da Fazenda Ipanema. Foto: James Martins (Panoramio) / Wikimedia Commons, CC BY 3.0 (recortada

A Real Fábrica de Ferro, de 1810

A história do ferro em Ipanema começa bem antes da fábrica. Por volta de 1590, o bandeirante Afonso Sardinha encontrou minério de ferro no Morro Araçoiaba e construiu ali fornos rudimentares, numa das primeiras tentativas de fabricar ferro nas Américas.

Mais de dois séculos depois, em 1810, a Coroa portuguesa, com o príncipe regente Dom João VI no Brasil, autorizou a criação da Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema. Os primeiros trabalhos foram comandados pelo técnico sueco Carl Gustav Hedberg, que acabou substituído pelo engenheiro alemão Friedrich Varnhagen. Foi sob o comando dele que a fábrica ganhou os dois altos-fornos gêmeos, acesos em 1818, que permanecem de pé até hoje.

Uma curiosidade: foi na fábrica, em 1816, que nasceu o filho do engenheiro, Francisco Adolfo de Varnhagen, que viria a ser um dos maiores historiadores do Império e recebeu o título de Visconde de Porto Seguro. É por isso que o centro de visitantes da floresta leva o nome dele.

Grande prédio comprido de pedra com janelas e portas em arco e telhado de telhas, no conjunto histórico da Real Fábrica de Ferro
Prédio histórico do conjunto da Real Fábrica de Ferro. Foto: Raphaelvao / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

A fábrica produziu ferro-gusa, munição, chapas, panelas, grades e muitos outros objetos, e funcionou, com períodos de pausa, até o começo do século 20. Menos de um quinto da estrutura original resistiu ao tempo, mas o que sobrou já impressiona.

A Real Fábrica de Ferro de Ipanema foi criada em 1810, e seus dois altos-fornos gêmeos foram acesos em 1818.

O que ver no sítio histórico da Fazenda Ipanema

A visita começa pelo sítio histórico, a parte da fazenda onde ficam os prédios da fábrica. Os altos-fornos de pedra e tijolo são o ponto alto, ao lado de depósitos, oficinas e prédios de arcos que parecem saídos de outro tempo.

A antiga sede administrativa, onde morava o diretor da fábrica, também hospedou o imperador Dom Pedro II em suas visitas à fazenda. O conjunto inclui ainda a antiga senzala, uma locomotiva antiga, um relógio de sol e o primeiro cemitério construído para não católicos no Brasil, numa época em que a fábrica empregava técnicos vindos da Suécia e da Alemanha.

Prédio de pedra com janelas em arco ao lado de uma pequena cachoeira que desce da barragem entre a mata
Prédios de pedra e a queda d’água junto à barragem. Foto: BrunaBengozi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Ao lado dos prédios fica a Represa Hedberg, cuja barragem forma uma pequena queda d’água entre as construções de pedra, um cenário perfeito para fotos. Cruzes de ferro fundido feitas na própria fábrica também resistiram ao tempo: uma fica perto do centro de visitantes, outra no alto do Morro Araçoiaba e uma terceira foi levada para um museu de Sorocaba.

Pequena cachoeira descendo pelo muro de pedra da barragem, com gramado na frente e casinha branca no alto
A queda d’água da Represa Hedberg, no sítio histórico. Foto: BrunaBengozi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O centro de visitantes tem um pequeno museu sobre a história da região e a natureza da floresta, além de banheiros, bebedouros e uma lanchonete simples.

Trilhas e natureza na Floresta Nacional

Além da história, a Fazenda Ipanema é uma área de mata protegida, que se estende pelos municípios de Iperó, Araçoiaba da Serra e Capela do Alto, com represa, campos e o Morro Araçoiaba, onde tudo começou. Há trilhas para vários níveis: a Trilha Afonso Sardinha é fácil e tem menos de 2 quilômetros, e a Trilha da Pedra Santa, de nível médio a difícil, tem cerca de 6 quilômetros e sobe até o alto do morro. As mais longas passam de 10 quilômetros, e uma delas leva ao Monumento a Varnhagen.

Represa de águas escuras com margens de mata e o Morro Araçoiaba ao fundo, sob céu azul com nuvens, na Fazenda Ipanema
A represa e o Morro Araçoiaba, na Floresta Nacional de Ipanema. Foto: Shirlei Rosalia Herrera Tatsukawa / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (recortada)

A floresta é boa para observar aves e outros bichos da mata, fazer piquenique e pedalar. Para as trilhas mais longas, vale chegar cedo, levar água e conferir no centro de visitantes quais estão abertas e se pedem acompanhamento.

Lago calmo refletindo o céu, com árvore de galhos secos em primeiro plano sobre uma laje de pedra
Paisagem da Floresta Nacional de Ipanema. Foto: Alessandro Augusto Alves Pinto / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Como visitar a Fazenda Ipanema

A Fazenda Ipanema abre de terça a domingo, a partir das 8h, e o ideal é chegar pela manhã para ter tempo de ver o sítio histórico e fazer uma trilha. O ingresso tem valor baixo e é pago em dinheiro ou PIX. Crianças até 10 anos e idosos não pagam. Grupos de escolas e universidades podem agendar visitas pelo centro de visitantes.

Para quem tem só meio dia, um bom roteiro é começar pelo centro de visitantes e o pequeno museu, seguir a pé até os altos-fornos e os prédios da fábrica, passar pela Represa Hedberg e pela sede onde Dom Pedro II se hospedou e terminar com a trilha curta Afonso Sardinha. Com o dia inteiro, dá para encarar a subida ao Morro Araçoiaba.

O acesso mais comum é por Iperó, a cerca de 15 quilômetros de Sorocaba, e há também uma entrada pelo lado de Araçoiaba da Serra. Leve protetor solar e calçado confortável, porque boa parte do passeio é a pé e ao ar livre.

Quem gosta de história ferroviária e industrial pode completar o roteiro com o Trem dos Operários, em Sorocaba, e com o museu ferroviário de Bauru.

A Fazenda Ipanema mostra, entre fornos de pedra e trilhas na mata, como o Brasil começou a fazer o próprio ferro, e rende um dia inteiro de passeio perto de Sorocaba.

Você sabia que uma das primeiras siderúrgicas do Brasil ficava no interior de São Paulo?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.