Muita gente conhece Bauru pelo sanduíche, mas a cidade do centro paulista tem uma história que corre sobre trilhos. No começo do século 20, três ferrovias se encontraram ali, e Bauru virou um dos maiores entroncamentos ferroviários do país, ponto de partida dos trens que seguiam rumo a Mato Grosso.
Hoje essa história está guardada num museu gratuito, com locomotiva a vapor de 1919, vagões antigos e maquetes, e numa estação art déco que domina o centro da cidade. Para completar o passeio, há um jardim botânico de mais de 300 hectares, um calçadão cheio de lojas e, claro, o sanduíche com receita protegida por lei.
A cidade que cresceu nos trilhos
A ferrovia chegou a Bauru no começo do século passado e mudou o destino da cidade. Em 1904 foi criada a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, a NOB, com o objetivo de ligar Bauru a Cuiabá, e a primeira estação, de madeira, foi inaugurada em 1906. A Sorocabana também chegou à cidade nessa época e, em 1910, foi a vez da Companhia Paulista. Com três ferrovias se cruzando ali, Bauru se tornou um dos maiores entroncamentos ferroviários do Brasil.
Os trens trouxeram trabalhadores, comércio e imigrantes, e a cidade cresceu em volta das linhas. Foi também em Bauru que Pelé passou a infância e deu os primeiros chutes, antes de ir para o Santos, uma curiosidade que muitos visitantes nem imaginam.
O maior símbolo dessa época é a Estação Central, inaugurada em 1939 para reunir as operações das três ferrovias num só prédio. O edifício em estilo art déco, de linhas retas e geométricas, foi projetado pelo engenheiro José Hugo Specht e tombado como patrimônio histórico em 2018. Desde o fim dos trens de passageiros, a estação está desativada, e a prefeitura estuda transformá-la em centro administrativo. Por enquanto, ela é para ver e fotografar por fora.
O Museu Ferroviário Regional de Bauru
Para entender essa história de perto, o passeio obrigatório é o Museu Ferroviário Regional de Bauru, criado em 1989 no antigo prédio administrativo da Noroeste do Brasil, na Rua Primeiro de Agosto, no centro. O acervo reúne peças de maquinário ferroviário, pinturas, móveis, fotografias e documentos que contam a época de ouro das ferrovias paulistas.

A estrela da visita está nos trilhos: uma locomotiva a vapor de 1919 e três carros de passageiros construídos entre 1932 e 1951, restaurados para que o público possa ver de perto. As salas temáticas guardam maquetes ferroviárias, que fazem a alegria de quem gosta de ferreomodelismo, e do lado de fora a Praça Kaingang tem painéis que contam a história da região.

A entrada é gratuita. O museu abre de terça a sexta, das 8h30 às 12h e das 13h30 às 17h, e aos sábados, das 8h30 às 13h30. Recebe cerca de 17 mil visitantes por ano e também faz oficinas e visitas monitoradas para escolas, então vale ligar antes se for em grupo.
O Museu Ferroviário Regional de Bauru é gratuito e tem uma locomotiva a vapor de 1919 e três carros de passageiros antigos.
O sanduíche Bauru, com receita protegida por lei
O famoso sanduíche não nasceu em Bauru, mas leva o nome da cidade por causa de um bauruense. Nos anos 1930, o estudante de Direito Casimiro Pinto Neto, que tinha o apelido de Bauru, pediu uma combinação diferente no Ponto Chic, bar tradicional do centro de São Paulo. O lanche fez sucesso, ganhou o apelido do cliente e virou clássico em lanchonetes de todo o país. O Ponto Chic continua aberto no Largo do Paiçandu, e o Bauru segue no cardápio como prato mais famoso da casa.
Com o tempo, surgiram versões com presunto, ovo e tudo o que se possa imaginar. Para defender o original, Bauru oficializou a receita por lei municipal em 1998: pão francês, rosbife, rodelas de tomate, pepino em conserva e queijo derretido. Quem visita a cidade costuma fazer questão de provar a versão oficial, com o rosbife no lugar do presunto.
A receita oficial do sanduíche Bauru leva pão francês, rosbife, tomate, pepino em conserva e queijo derretido.
Jardim Botânico, calçadão e outros passeios em Bauru
Depois do museu e do sanduíche, a cidade tem passeios para o resto do dia. O Jardim Botânico Municipal de Bauru, inaugurado em 1994, ocupa mais de 320 hectares, a maior parte de cerrado, com trilhas ecológicas, lagos e espécies de plantas nativas. É um bom lugar para caminhar e ver de perto uma vegetação típica do interior paulista.

No centro, o Calçadão da Batista de Carvalho é uma rua só de pedestres, considerada um shopping a céu aberto, com dezenas de lojas, lanchonetes e mesas na calçada. Como o museu e a Estação Central também ficam no centro, dá para juntar os três no mesmo dia.

Outra parada é o Parque Vitória Régia, um dos cartões-postais de Bauru, com área verde, anfiteatro, feira de artesanato e shows nos fins de semana. Quem gosta de arquitetura pode passar também pelo Automóvel Clube de Bauru, prédio de fachada branca de 1938, apelidado de Palácio Encantado e tombado como patrimônio municipal.
Com crianças, vale incluir o Parque Zoológico Municipal, que tem pinguinário e casa dos répteis entre as atrações. E, para quem gosta de turismo religioso, a Igreja Matriz do Divino Espírito Santo tem origem em 1888, quase junto com a cidade, e ganhou o título de matriz em 1923.
Dicas para a visita
O melhor dia para conhecer Bauru é sábado, quando o museu ferroviário abre de manhã e sobra a tarde para o Jardim Botânico e o calçadão. Como o museu fecha aos domingos e às segundas, quem vai no fim de semana deve deixar o sábado de manhã reservado para ele.
Bauru fica no centro do estado, numa região cortada por rodovias, e é fácil combinar a viagem com outras cidades do interior. Quem gosta de trem pode montar um roteiro ferroviário com a Maria Fumaça de Campinas e o Trem dos Operários, em Sorocaba.
Bauru mostra que um sanduíche famoso pode ser só o começo, e que a história de muitas cidades do interior ainda passa pelos trilhos.
Você já provou o Bauru com a receita oficial, com rosbife?





