Muito antes das estradas asfaltadas, as tropas de mulas cruzavam o sudoeste paulista levando mercadorias entre o sul do país e a famosa feira de Sorocaba. No caminho, os tropeiros paravam para descansar num lugar chamado Faxina. Esse pouso virou vila, ganhou uma igreja de taipa e, séculos depois, passou a se chamar Itapeva. Hoje, a cidade guarda uma fazenda ligada aos tropeiros, tombada como patrimônio histórico, uma catedral de 1785 e um salgado caipira que todo visitante quer provar.
Itapeva fica a 289 km de São Paulo, no sudoeste do estado, perto da divisa com o Paraná. O nome vem do tupi e costuma ser traduzido como “pedra chata”. A vila foi instalada em 1769, e a cidade se chamou Itapeva da Faxina e depois só Faxina, até adotar o nome atual em 1938.
A Fazenda Pilão d’Água, dos tropeiros ao parque
O principal patrimônio rural de Itapeva é a Fazenda Pilão d’Água, ligada ao ciclo do tropeirismo e ao caminho das tropas que seguia rumo a Sorocaba. Tombada como patrimônio histórico, a fazenda virou um grande espaço de lazer aberto ao público, com área verde, mata nativa e araucárias.
Conhecida também como Recanto Bento Alves Natel, a área fica perto da cidade e tem uma represa grande e piscinas de água natural, muito procuradas no verão. Há ainda atividades de educação ambiental e a Casa do Artesão, onde dá para comprar peças feitas na região. É o lugar certo para passar uma tarde ao ar livre, com piquenique à sombra das araucárias, e imaginar o tempo em que as tropas paravam por ali.

Os tropeiros foram fundamentais para o interior paulista. Levavam mulas, gado, couro e mantimentos por caminhos de terra que ligavam o sul do Brasil às feiras de Sorocaba, e muitas cidades nasceram dos pousos onde eles descansavam. Em Itapeva, essa memória está na própria origem da cidade e em fazendas como a Pilão d’Água. Leve protetor solar, roupa de banho e repelente, e confira os horários de funcionamento antes de ir, principalmente fora do verão.

A Catedral de Sant’Ana, de taipa e de 1785
No centro, a Catedral de Sant’Ana é a construção mais antiga de Itapeva. Foi inaugurada em 1785 e erguida em taipa de pilão por cerca de 40 escravizados, num tempo em que a vila ainda era um pouso de tropeiros. Em 1968, a igreja recebeu o título de catedral, e o prédio é protegido como patrimônio histórico do município.
Por fora, a fachada clara com duas torres e o cruzeiro de pedra na frente formam a imagem mais conhecida da cidade, ainda mais bonita sob o céu azul das manhãs secas. Vale entrar com calma para observar as paredes grossas de terra socada, a decoração e as obras de valor histórico guardadas lá dentro. A praça em volta é o coração do centro e um bom ponto de partida para o passeio a pé.
Prédios centenários do centro de Itapeva
Ao redor da catedral, outros prédios contam a história da cidade. O antigo edifício inaugurado em 1895 já foi cadeia e fórum, depois sede da câmara de vereadores, e hoje abriga o batalhão de polícia da cidade. A fachada é um bom exemplo da arquitetura pública do fim do século 19. Como fica perto da catedral, dá para conhecer os dois no mesmo passeio a pé, aproveitando para reparar no casario antigo do entorno, que guarda a memória da época em que Itapeva ainda se chamava Faxina.
A Escola Coronel Acácio Piedade, construída em 1913, chama a atenção pela riqueza de detalhes da fachada. O nome homenageia um dos políticos mais influentes da região na época.

Já a Capela Nossa Senhora do Carmo é um dos pontos mais queridos do centro. Pequena e cheia de detalhes, guarda a imagem de Nossa Senhora do Carmo e está ligada à história do vigário José Custódio de Camargo, que a teria construído como parada no caminho entre sua casa e a igreja matriz.
O encapotado, a coxinha caipira de Itapeva
Nenhuma visita a Itapeva está completa sem provar o encapotado. O quitute é feito com farinha de milho, caldo de galinha caipira e polvilho azedo, recheado com galinha desfiada e cheiro-verde, e frito até dourar. Por isso, muita gente o chama de variação caipira da coxinha. Peça na cidade e prove ainda quente.

Itapeva também tem cânion e cachoeira
Além do patrimônio, Itapeva tem natureza de sobra. O Parque Rupestre e o Cânion Itanguá reúnem mata nativa, paredões de rocha para rapel e escalada e uma cachoeira com 30 metros de queda, com visitas feitas com guias de agências locais. Na zona rural, a Cachoeira do Saltinho fica no bairro Saltinho do Coqueiral, a cerca de 40 km do centro, com acesso gratuito. A água desce em várias quedas entre pedras douradas e forma um poço tranquilo, e há uma lanchonete no local. No caminho, dá para comprar artesanato e produtos dos sítios do bairro.

Roteiro de um dia em Itapeva
Comece pela manhã no centro: Catedral de Sant’Ana, Capela do Carmo, o prédio de 1895 e a escola de 1913, tudo perto. Prove o encapotado no meio da manhã ou no almoço. À tarde, siga para a Fazenda Pilão d’Água e aproveite a área verde e as piscinas naturais. Se tiver mais um dia, reserve para o Cânion Itanguá com guia.
Itapeva combina com outras cidades do sudoeste paulista. Mais perto da capital, Itapetininga guarda casarões e uma cadeia de taipa. Ao sul, Itararé tem cânions e rio subterrâneo, e o Parque Estadual Intervales fica na mesma região. Quem quer conhecer mais da história dos tropeiros pode visitar o Museu do Tropeiro, em Boituva.
Sentar à sombra das araucárias numa fazenda dos tropeiros e terminar o dia diante de uma igreja de taipa de 1785 é sentir como os caminhos das tropas desenharam o interior paulista.





