Paraibuna tem dezenas de igrejas abertas à visitação, represa com 204 ilhas e a bica onde os tropeiros matavam a sede

Represa de Paraibuna entre morros cobertos de mata, com ilhas e serras azuladas no horizonte
A represa vista do mirante da Rodovia dos Tamoios, em Paraibuna. Foto: Nancy Ayumi Kunihiro / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Quem desce a Rodovia dos Tamoios rumo ao litoral norte passa por Paraibuna quase sem perceber. Mas a cidade merece uma parada: tem dezenas de igrejas e capelas abertas à visitação, uma represa com 204 ilhas cercada de morros e, no centro, a bica d’água onde os tropeiros paravam para matar a sede antes de negociar no mercado.

O centro histórico guarda casarões do tempo do café, um mercado de taipa e uma igreja matriz coberta de azulejos portugueses. Na zona rural, sítios recebem visitantes com cachaça de alambique, frutas no pé e café caipira.

Paraibuna, no caminho para o litoral norte

Paraibuna nasceu em 13 de junho de 1666, dia de Santo Antônio, quando moradores vindos de Taubaté e de São Paulo ergueram uma capela ao santo. O nome vem do tupi e quer dizer “rio de águas escuras”. Por estar entre o Vale do Paraíba e o litoral norte, o povoado virou ponto de pouso de tropeiros que subiam e desciam a serra.

O café chegou por volta de 1830 e, poucos anos depois, a região já tinha cerca de 34 fazendas cafeeiras. Desse período vêm os casarões e o traçado do centro. Hoje a cidade fica a cerca de 125 quilômetros de São Paulo, com acesso direto pela Tamoios, entre São José dos Campos e Caraguatatuba.

A Matriz de Santo Antônio e as dezenas de igrejas

O ponto de partida de qualquer passeio é a Igreja Matriz de Santo Antônio, impossível de confundir: a fachada e a torre são cobertas de azulejos portugueses azuis e brancos. Por dentro, o teto tem pinturas de Álvaro Pereira que contam a história do padroeiro da cidade.

Torre da Igreja Matriz de Santo Antônio de Paraibuna, coberta de azulejos azuis e brancos, com relógio
A Matriz de Santo Antônio, com a fachada de azulejos. Foto: Paulo Roberto de Souza / Wikimedia Commons, CC BY 2.0 (recortada)

A matriz é só o começo. Paraibuna tem dezenas de igrejas e capelas espalhadas entre o centro e os bairros, inclusive os mais afastados da zona rural. Todas são abertas à visitação, com entrada gratuita, o que permite montar um roteiro próprio, do largo da matriz até as capelas dos bairros rurais.

Paraibuna tem dezenas de igrejas e capelas, do centro aos bairros rurais, todas abertas à visitação.

Largo do Rosário: igreja, Santa Casa e o antigo internato

A poucos passos da matriz, o Largo do Rosário reúne três prédios que mostram como era a cidade no século passado: a Igreja Nossa Senhora do Rosário, branca com detalhes azuis, a Santa Casa de Misericórdia, ao lado, e o Instituto Santo Antônio, antigo internato.

Igreja Nossa Senhora do Rosário, branca com detalhes azuis, ao lado do prédio da Santa Casa, atrás de árvores
A Igreja do Rosário e a Santa Casa de Paraibuna. Foto: Paulo Roberto de Souza / Wikimedia Commons, CC BY 2.0 (recortada)

O instituto chama atenção pelo tamanho: um prédio amarelo de dois andares, com janelas em arco e escadaria dupla na entrada. Na frente, um jardim com bancos completa o largo.

Prédio amarelo de dois andares do Instituto Santo Antônio, com escadaria dupla e janelas em arco
 O Instituto Santo Antônio, antigo internato, no Largo do Rosário. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A bica onde os tropeiros matavam a sede

No Largo do Mercado fica a Bica d’Água, um dos símbolos de Paraibuna. Era ali que os tropeiros e os cavaleiros que chegavam da roça ou das cidades vizinhas paravam para beber água e dar de beber aos animais, antes de negociar no mercado ao lado.

Bica d'água de Paraibuna revestida de azulejos, com o brasão da cidade e uma carranca de leão de onde sai a água
A Bica d’Água, no Largo do Mercado. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada

A construção atual é de 1961, toda revestida de azulejos, com o brasão da cidade e uma carranca de leão de onde sai a água. Ela guarda a memória das paradas dos tropeiros e um ditado que todo morador conhece: “quem bebe água da Bica, aqui fica”.

Mercado de taipa e Fundação Cultural

Ao lado da bica está o Mercado Municipal, um barracão de taipa construído no fim do século 19, pintado de branco e azul. Os boxes vendem produtos típicos da região, quitutes e artesanato, e é um bom lugar para provar a comida caipira da cidade.

Fachada branca e azul do Mercado Municipal de Paraibuna, com portões de grade e porta em arco
Mercado Municipal, no Largo do Mercado. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Outro casarão histórico, de 1878, abriga a Fundação Cultural. Além de oficinas e eventos, o prédio guarda a exposição permanente do Núcleo de Patrimônio Histórico, com objetos que contam a história da cidade, das fazendas de café à chegada da represa.

Casarão térreo amarelo e vinho com janelas de madeira e o letreiro Fundação Cultural na fachada
O casarão da Fundação Cultural, no centro. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O portal do cemitério que virou filme

Uma das curiosidades da cidade fica no cemitério. No portal de entrada está escrita a frase “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, que o cineasta Marcelo Masagão encontrou ali e usou como título do documentário lançado em 1999, um retrato do século 20 montado com imagens de arquivo e fotos de túmulos.

Depois do filme, o cemitério passou a receber visitantes curiosos. No mesmo lugar fica a Capela de São Miguel, que pode ser conhecida no passeio pelo centro.

A represa de Paraibuna e as 204 ilhas

A represa de Paraibuna foi formada pelo represamento dos rios Paraibuna e Paraitinga, numa obra que mudou a paisagem e a vida da cidade, alagando várzeas e antigas áreas de lavoura. O lago se estende também por Redenção da Serra e Natividade da Serra.

Água calma da represa de Paraibuna refletindo nuvens brancas e o céu azul, com margens de terra e mata
A represa de Paraibuna em dia de céu limpo. Foto: Fabricio Macedo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

São 204 ilhas no meio da água, entre morros cobertos de mata. O lago é usado para passeios de lancha, jet-ski, esqui aquático, canoagem e pesca, e há pesqueiros e pousadas nas margens. Para ver a represa do alto, pare no mirante da própria Tamoios, de onde se enxergam as ilhas e as serras ao fundo.

Morros verdes com chácaras e árvores, e serras com neblina ao fundo, na região da represa
Chácaras e serras na região da represa. Foto: Fabricio Macedo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Vale da Fartura: cachaça, frutas e café caipira

Na zona rural, o roteiro Vale da Fartura, no bairro do Porto, reúne sítios de famílias que abrem as porteiras para visitantes. No Sítio JJ dá para acompanhar a produção de cachaça, da destilação ao engarrafamento. No Sítio do Bello, as trilhas passam pela mata nativa e por pomares com frutas para provar direto do pé, além de geleias e sorvetes.

Casa de sítio com varanda de madeira, muro de pedra e escada de grama, sob árvores altas
O Sítio JM, no roteiro Vale da Fartura. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O Sítio JM guarda um pequeno espaço de memória da cultura tropeira e serve café caipira e almoço tradicional da roça. Como são propriedades familiares, as visitas precisam ser combinadas antes, pelo Departamento de Turismo da cidade.

Dicas para visitar Paraibuna

Paraibuna fica a cerca de 125 quilômetros de São Paulo e funciona bem como bate-volta ou como parada na ida para o litoral norte, já que está no meio do caminho entre São José dos Campos e Caraguatatuba. O centro histórico se percorre a pé em uma manhã.

Para conhecer mais do Vale do Paraíba, a vizinha São Luiz do Paraitinga, cortada pelo Rio Paraitinga, um dos que formam a represa, Cunha e Silveiras, outra cidade dos tropeiros, rendem roteiros completos.

Uma matriz de azulejos, um mercado de taipa e uma bica com promessa de ficar: Paraibuna é a parada que muita gente pula na Tamoios e deveria fazer.

Você beberia a água da bica para ver se o ditado funciona?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.