Quem desce a Rodovia dos Tamoios rumo ao litoral norte passa por Paraibuna quase sem perceber. Mas a cidade merece uma parada: tem dezenas de igrejas e capelas abertas à visitação, uma represa com 204 ilhas cercada de morros e, no centro, a bica d’água onde os tropeiros paravam para matar a sede antes de negociar no mercado.
O centro histórico guarda casarões do tempo do café, um mercado de taipa e uma igreja matriz coberta de azulejos portugueses. Na zona rural, sítios recebem visitantes com cachaça de alambique, frutas no pé e café caipira.
Paraibuna, no caminho para o litoral norte
Paraibuna nasceu em 13 de junho de 1666, dia de Santo Antônio, quando moradores vindos de Taubaté e de São Paulo ergueram uma capela ao santo. O nome vem do tupi e quer dizer “rio de águas escuras”. Por estar entre o Vale do Paraíba e o litoral norte, o povoado virou ponto de pouso de tropeiros que subiam e desciam a serra.
O café chegou por volta de 1830 e, poucos anos depois, a região já tinha cerca de 34 fazendas cafeeiras. Desse período vêm os casarões e o traçado do centro. Hoje a cidade fica a cerca de 125 quilômetros de São Paulo, com acesso direto pela Tamoios, entre São José dos Campos e Caraguatatuba.
A Matriz de Santo Antônio e as dezenas de igrejas
O ponto de partida de qualquer passeio é a Igreja Matriz de Santo Antônio, impossível de confundir: a fachada e a torre são cobertas de azulejos portugueses azuis e brancos. Por dentro, o teto tem pinturas de Álvaro Pereira que contam a história do padroeiro da cidade.

A matriz é só o começo. Paraibuna tem dezenas de igrejas e capelas espalhadas entre o centro e os bairros, inclusive os mais afastados da zona rural. Todas são abertas à visitação, com entrada gratuita, o que permite montar um roteiro próprio, do largo da matriz até as capelas dos bairros rurais.
Paraibuna tem dezenas de igrejas e capelas, do centro aos bairros rurais, todas abertas à visitação.
Largo do Rosário: igreja, Santa Casa e o antigo internato
A poucos passos da matriz, o Largo do Rosário reúne três prédios que mostram como era a cidade no século passado: a Igreja Nossa Senhora do Rosário, branca com detalhes azuis, a Santa Casa de Misericórdia, ao lado, e o Instituto Santo Antônio, antigo internato.

O instituto chama atenção pelo tamanho: um prédio amarelo de dois andares, com janelas em arco e escadaria dupla na entrada. Na frente, um jardim com bancos completa o largo.

A bica onde os tropeiros matavam a sede
No Largo do Mercado fica a Bica d’Água, um dos símbolos de Paraibuna. Era ali que os tropeiros e os cavaleiros que chegavam da roça ou das cidades vizinhas paravam para beber água e dar de beber aos animais, antes de negociar no mercado ao lado.

A construção atual é de 1961, toda revestida de azulejos, com o brasão da cidade e uma carranca de leão de onde sai a água. Ela guarda a memória das paradas dos tropeiros e um ditado que todo morador conhece: “quem bebe água da Bica, aqui fica”.
Mercado de taipa e Fundação Cultural
Ao lado da bica está o Mercado Municipal, um barracão de taipa construído no fim do século 19, pintado de branco e azul. Os boxes vendem produtos típicos da região, quitutes e artesanato, e é um bom lugar para provar a comida caipira da cidade.

Outro casarão histórico, de 1878, abriga a Fundação Cultural. Além de oficinas e eventos, o prédio guarda a exposição permanente do Núcleo de Patrimônio Histórico, com objetos que contam a história da cidade, das fazendas de café à chegada da represa.

O portal do cemitério que virou filme
Uma das curiosidades da cidade fica no cemitério. No portal de entrada está escrita a frase “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, que o cineasta Marcelo Masagão encontrou ali e usou como título do documentário lançado em 1999, um retrato do século 20 montado com imagens de arquivo e fotos de túmulos.
Depois do filme, o cemitério passou a receber visitantes curiosos. No mesmo lugar fica a Capela de São Miguel, que pode ser conhecida no passeio pelo centro.
A represa de Paraibuna e as 204 ilhas
A represa de Paraibuna foi formada pelo represamento dos rios Paraibuna e Paraitinga, numa obra que mudou a paisagem e a vida da cidade, alagando várzeas e antigas áreas de lavoura. O lago se estende também por Redenção da Serra e Natividade da Serra.

São 204 ilhas no meio da água, entre morros cobertos de mata. O lago é usado para passeios de lancha, jet-ski, esqui aquático, canoagem e pesca, e há pesqueiros e pousadas nas margens. Para ver a represa do alto, pare no mirante da própria Tamoios, de onde se enxergam as ilhas e as serras ao fundo.

Vale da Fartura: cachaça, frutas e café caipira
Na zona rural, o roteiro Vale da Fartura, no bairro do Porto, reúne sítios de famílias que abrem as porteiras para visitantes. No Sítio JJ dá para acompanhar a produção de cachaça, da destilação ao engarrafamento. No Sítio do Bello, as trilhas passam pela mata nativa e por pomares com frutas para provar direto do pé, além de geleias e sorvetes.

O Sítio JM guarda um pequeno espaço de memória da cultura tropeira e serve café caipira e almoço tradicional da roça. Como são propriedades familiares, as visitas precisam ser combinadas antes, pelo Departamento de Turismo da cidade.
Dicas para visitar Paraibuna
Paraibuna fica a cerca de 125 quilômetros de São Paulo e funciona bem como bate-volta ou como parada na ida para o litoral norte, já que está no meio do caminho entre São José dos Campos e Caraguatatuba. O centro histórico se percorre a pé em uma manhã.
Para conhecer mais do Vale do Paraíba, a vizinha São Luiz do Paraitinga, cortada pelo Rio Paraitinga, um dos que formam a represa, Cunha e Silveiras, outra cidade dos tropeiros, rendem roteiros completos.
Uma matriz de azulejos, um mercado de taipa e uma bica com promessa de ficar: Paraibuna é a parada que muita gente pula na Tamoios e deveria fazer.
Você beberia a água da bica para ver se o ditado funciona?





