Águas da Prata é o ponto de partida do Caminho da Fé e tem fontes de água mineral e mais de 90 cachoeiras

Vista do alto de Águas da Prata, com casas de telhado vermelho, a igreja branca no centro e montanhas cobertas de mata ao redor
Águas da Prata vista do alto, entre as montanhas. Foto: Yon10, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (recortada)

Quem decide ir a pé até o Santuário de Aparecida pelo Caminho da Fé costuma dar o primeiro passo em Águas da Prata, uma estância hidromineral aos pés da Serra da Mantiqueira, na divisa com Minas Gerais, a cerca de 240 quilômetros de São Paulo. Em junho de 2026, uma lei federal reconheceu o roteiro e confirmou a cidade como início da rota principal.

Mas não é preciso ser peregrino para aproveitar a viagem. A cidade cresceu em volta de fontes de água mineral, guarda uma estação de trem de 1886, tem mais de 90 cachoeiras catalogadas e, na divisa, uma rampa de voo livre a mais de 1.600 metros de altitude.

O Caminho da Fé começa em Águas da Prata

Criado em 2003 pela Associação dos Amigos do Caminho da Fé, o roteiro liga cidades do interior paulista e do sul de Minas ao Santuário Nacional de Aparecida. A rota principal, que sai de Águas da Prata, tem entre 304 e 317 quilômetros e passa por Andradas, Ouro Fino, Borda da Mata, Paraisópolis e Campos do Jordão antes de descer para o Vale do Paraíba.

Placa do Caminho da Fé em Águas da Prata indicando Andradas a 21 km, ao lado de uma estrada de terra no meio da mata
Placa do Caminho da Fé no primeiro trecho, rumo a Andradas. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O trajeto é marcado com setas amarelas, parecidas com as do Caminho de Santiago de Compostela, e placas que mostram a quilometragem. O peregrino leva uma credencial, carimbada em pousadas, igrejas e pontos de apoio ao longo da rota. Muita gente faz o percurso de bicicleta, e cada um escolhe o próprio ritmo: há quem complete em uma semana e quem leve um mês. Logo no começo, uma das placas avisa que Andradas, a primeira parada em Minas, fica a 21 quilômetros.

Em Águas da Prata começa a rota principal do Caminho da Fé, com cerca de 300 quilômetros até Aparecida.

Hoje o Caminho da Fé tem 18 rotas, que saem de cidades diferentes e se juntam ao trajeto principal mais adiante. O de Águas da Prata é a original, a primeira a ser inaugurada.

A estação de 1886

A cidade nasceu junto com a ferrovia. Em 1876, o dentista Rufino Luiz de Castro Gavião reparou que os animais bebiam de uma nascente à beira do Ribeirão da Prata e descobriu que aquela era uma água mineral. Dez anos depois, a Companhia Mogiana abriu a linha que levava a Poços de Caldas e inaugurou a estação Prata, em 1º de outubro de 1886. Em volta dela surgiram as primeiras casas, o primeiro hotel e as pensões para quem vinha tomar as águas.

Prédio amarelo da antiga estação ferroviária de Águas da Prata, com plataforma coberta, trilhos e dormentes de madeira em primeiro plano
A antiga estação da Mogiana, de 1886. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Os trens de passageiros pararam de circular no fim de 1976, mas o prédio amarelo, com a plataforma de cobertura metálica, continua no centro, ao lado da rodoviária, e hoje recebe eventos culturais.

As fontes de água mineral de Águas da Prata

São dez fontes oficiais espalhadas pela cidade, cada uma com uma água de composição diferente. A mais famosa é a Fonte Vilela, dentro do Bosque Estadual, uma área de mata preservada com trilhas, quiosques e macacos-prego circulando entre as árvores. A água dela é conhecida pela radioatividade natural, característica que fez a fama da estância durante décadas.

Fio de água mineral caindo de uma bica de pedra avermelhada, com mata verde desfocada ao fundo
A água da Fonte Vilela, no Bosque Estadual. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O bosque faz parte do Parque Estadual Águas da Prata, criado em 2018 para proteger a Mata Atlântica e as nascentes. Em abril de 2026, o governo do estado aprovou uma reforma completa do espaço, com piso, telhados, banheiros, quiosques e a área da fonte, e a promessa de manter o local funcionando durante a obra. Vale confirmar com a prefeitura antes de ir.

Fora do bosque, a Fonte da Juventude é uma das mais procuradas, e a Fonte Platina, a cerca de 5 quilômetros do centro, fica junto de uma cascata com piscina natural. Leve garrafas vazias: encher água nas bicas faz parte do passeio.

Cachoeiras de Águas da Prata

A prefeitura contabiliza mais de 90 cachoeiras no município, resultado da serra e da mata preservada em volta da cidade. A Cascatinha é uma das mais conhecidas: uma queda que forma um poço de água clara no meio da mata, com um riacho raso correndo entre as pedras logo abaixo.

Cachoeira da Cascatinha em Águas da Prata caindo num poço no meio da mata, com riacho raso correndo entre pedras
A Cachoeira da Cascatinha. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Para quem gosta de aventura, a Sete Quedas é um conjunto de sete cachoeiras em sequência. A trilha tem trechos íngremes, um deles com corda, e por isso o melhor é fazer o passeio com guia local. A última queda desce em vários fios de água por um paredão de pedra escura até um poço largo.

Vários fios de água descendo por um paredão de pedra escura até um poço largo, na última queda da Sete Quedas
A última queda da Sete Quedas. Foto: Gabriel Peres, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (recortada)

Outra queda conhecida é a da Ponte de Pedra. Muitas cachoeiras da região ficam em propriedades particulares, com acesso pago ou por agendamento, então informe-se na cidade sobre quais estão abertas antes de sair para a trilha.

Pico do Gavião

Na divisa entre Águas da Prata e Andradas, com uma parte em cada estado, o Pico do Gavião chega a 1.663 metros e é muito procurado para voo livre, com rampas voltadas para várias direções. Lá de cima, a vista alcança vales, morros e cidades dos dois lados da divisa.

Visitante sentado de braços abertos na rampa de madeira do Pico do Gavião, de frente para vales e morros verdes
A rampa de voo livre do Pico do Gavião. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada

O último trecho da subida é por estrada de terra. No alto há estacionamento, lanchonete e área de camping. Quem não é piloto pode voar de parapente ou asa-delta em voo duplo, com instrutor, contratando uma das operadoras da região. Mesmo sem voar, a subida vale pela paisagem, principalmente no fim da tarde.

Mirante do Cristo e Gruta de Lourdes

A 900 metros do centro, o Mirante do Cristo tem vista para a cidade inteira encaixada entre as montanhas e é o lugar mais procurado para ver o pôr do sol sem pegar estrada de terra. Já no centro, a Gruta Nossa Senhora de Lourdes, inaugurada em 1958, tem jardim arborizado e um lago com peixes ornamentais, bom para uma pausa entre uma fonte e outra.

Dicas para visitar Águas da Prata

Águas da Prata fica a cerca de 240 quilômetros de São Paulo, vizinha de São João da Boa Vista e de Poços de Caldas, já em Minas. A 840 metros de altitude, tem clima ameno, com média anual perto de 19 graus, verão chuvoso e inverno seco e frio. As cachoeiras ficam mais cheias entre novembro e março, e o inverno costuma ter céu mais limpo para a vista do Pico do Gavião.

Leve tênis, repelente e roupa de banho. Quem pretende seguir o Caminho da Fé pode terminar a viagem em Aparecida, passando por Campos do Jordão e, em uma das chegadas, por Pindamonhangaba.

Água brotando da serra, setas amarelas apontando para Aparecida e um mar de morros visto do alto: em Águas da Prata, até o começo de viagem já é destino.

Você faria o Caminho da Fé a pé ou de bicicleta?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.