Quem decide ir a pé até o Santuário de Aparecida pelo Caminho da Fé costuma dar o primeiro passo em Águas da Prata, uma estância hidromineral aos pés da Serra da Mantiqueira, na divisa com Minas Gerais, a cerca de 240 quilômetros de São Paulo. Em junho de 2026, uma lei federal reconheceu o roteiro e confirmou a cidade como início da rota principal.
Mas não é preciso ser peregrino para aproveitar a viagem. A cidade cresceu em volta de fontes de água mineral, guarda uma estação de trem de 1886, tem mais de 90 cachoeiras catalogadas e, na divisa, uma rampa de voo livre a mais de 1.600 metros de altitude.
O Caminho da Fé começa em Águas da Prata
Criado em 2003 pela Associação dos Amigos do Caminho da Fé, o roteiro liga cidades do interior paulista e do sul de Minas ao Santuário Nacional de Aparecida. A rota principal, que sai de Águas da Prata, tem entre 304 e 317 quilômetros e passa por Andradas, Ouro Fino, Borda da Mata, Paraisópolis e Campos do Jordão antes de descer para o Vale do Paraíba.

O trajeto é marcado com setas amarelas, parecidas com as do Caminho de Santiago de Compostela, e placas que mostram a quilometragem. O peregrino leva uma credencial, carimbada em pousadas, igrejas e pontos de apoio ao longo da rota. Muita gente faz o percurso de bicicleta, e cada um escolhe o próprio ritmo: há quem complete em uma semana e quem leve um mês. Logo no começo, uma das placas avisa que Andradas, a primeira parada em Minas, fica a 21 quilômetros.
Em Águas da Prata começa a rota principal do Caminho da Fé, com cerca de 300 quilômetros até Aparecida.
Hoje o Caminho da Fé tem 18 rotas, que saem de cidades diferentes e se juntam ao trajeto principal mais adiante. O de Águas da Prata é a original, a primeira a ser inaugurada.
A estação de 1886
A cidade nasceu junto com a ferrovia. Em 1876, o dentista Rufino Luiz de Castro Gavião reparou que os animais bebiam de uma nascente à beira do Ribeirão da Prata e descobriu que aquela era uma água mineral. Dez anos depois, a Companhia Mogiana abriu a linha que levava a Poços de Caldas e inaugurou a estação Prata, em 1º de outubro de 1886. Em volta dela surgiram as primeiras casas, o primeiro hotel e as pensões para quem vinha tomar as águas.

Os trens de passageiros pararam de circular no fim de 1976, mas o prédio amarelo, com a plataforma de cobertura metálica, continua no centro, ao lado da rodoviária, e hoje recebe eventos culturais.
As fontes de água mineral de Águas da Prata
São dez fontes oficiais espalhadas pela cidade, cada uma com uma água de composição diferente. A mais famosa é a Fonte Vilela, dentro do Bosque Estadual, uma área de mata preservada com trilhas, quiosques e macacos-prego circulando entre as árvores. A água dela é conhecida pela radioatividade natural, característica que fez a fama da estância durante décadas.

O bosque faz parte do Parque Estadual Águas da Prata, criado em 2018 para proteger a Mata Atlântica e as nascentes. Em abril de 2026, o governo do estado aprovou uma reforma completa do espaço, com piso, telhados, banheiros, quiosques e a área da fonte, e a promessa de manter o local funcionando durante a obra. Vale confirmar com a prefeitura antes de ir.
Fora do bosque, a Fonte da Juventude é uma das mais procuradas, e a Fonte Platina, a cerca de 5 quilômetros do centro, fica junto de uma cascata com piscina natural. Leve garrafas vazias: encher água nas bicas faz parte do passeio.
Cachoeiras de Águas da Prata
A prefeitura contabiliza mais de 90 cachoeiras no município, resultado da serra e da mata preservada em volta da cidade. A Cascatinha é uma das mais conhecidas: uma queda que forma um poço de água clara no meio da mata, com um riacho raso correndo entre as pedras logo abaixo.

Para quem gosta de aventura, a Sete Quedas é um conjunto de sete cachoeiras em sequência. A trilha tem trechos íngremes, um deles com corda, e por isso o melhor é fazer o passeio com guia local. A última queda desce em vários fios de água por um paredão de pedra escura até um poço largo.

Outra queda conhecida é a da Ponte de Pedra. Muitas cachoeiras da região ficam em propriedades particulares, com acesso pago ou por agendamento, então informe-se na cidade sobre quais estão abertas antes de sair para a trilha.
Pico do Gavião
Na divisa entre Águas da Prata e Andradas, com uma parte em cada estado, o Pico do Gavião chega a 1.663 metros e é muito procurado para voo livre, com rampas voltadas para várias direções. Lá de cima, a vista alcança vales, morros e cidades dos dois lados da divisa.

O último trecho da subida é por estrada de terra. No alto há estacionamento, lanchonete e área de camping. Quem não é piloto pode voar de parapente ou asa-delta em voo duplo, com instrutor, contratando uma das operadoras da região. Mesmo sem voar, a subida vale pela paisagem, principalmente no fim da tarde.
Mirante do Cristo e Gruta de Lourdes
A 900 metros do centro, o Mirante do Cristo tem vista para a cidade inteira encaixada entre as montanhas e é o lugar mais procurado para ver o pôr do sol sem pegar estrada de terra. Já no centro, a Gruta Nossa Senhora de Lourdes, inaugurada em 1958, tem jardim arborizado e um lago com peixes ornamentais, bom para uma pausa entre uma fonte e outra.
Dicas para visitar Águas da Prata
Águas da Prata fica a cerca de 240 quilômetros de São Paulo, vizinha de São João da Boa Vista e de Poços de Caldas, já em Minas. A 840 metros de altitude, tem clima ameno, com média anual perto de 19 graus, verão chuvoso e inverno seco e frio. As cachoeiras ficam mais cheias entre novembro e março, e o inverno costuma ter céu mais limpo para a vista do Pico do Gavião.
Leve tênis, repelente e roupa de banho. Quem pretende seguir o Caminho da Fé pode terminar a viagem em Aparecida, passando por Campos do Jordão e, em uma das chegadas, por Pindamonhangaba.
Água brotando da serra, setas amarelas apontando para Aparecida e um mar de morros visto do alto: em Águas da Prata, até o começo de viagem já é destino.
Você faria o Caminho da Fé a pé ou de bicicleta?




