Maria Fumaça de Campinas percorre 25 km entre fazendas de café, com vagões de madeira e museu no fim

Locomotiva a vapor 505 da Maria Fumaça soltando uma nuvem de fumaça branca, puxando vagões de madeira sob céu azul
A Maria Fumaça em Jaguariúna. Foto: Isack Ryuji Minowa / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (recortada)

Um trem puxado por locomotiva a vapor ainda faz, todo fim de semana, o caminho entre Campinas e Jaguariúna, no interior paulista. O passeio de Maria Fumaça percorre cerca de 25 quilômetros de trilhos da antiga Companhia Mogiana, passa por fazendas centenárias de café, cruza uma ponte do século 19 sobre o rio Atibaia e termina numa estação com museu ferroviário.

O trem roda aos sábados, domingos e feriados, e o percurso completo, de ida e volta, leva cerca de 3 horas e meia. Quem opera é a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária, a ABPF, uma organização sem fins lucrativos que mantém o passeio há mais de 40 anos, com mais de 250 viagens por ano.

Como é o passeio de Maria Fumaça entre Campinas e Jaguariúna

O embarque principal fica na Estação Anhumas, em Campinas, sede da operação da ABPF. Nos sábados, domingos e feriados, o trem do percurso completo sai de lá às 10h10, e aos domingos e feriados há uma segunda saída à tarde.

Os passageiros viajam em vagões antigos de madeira, preservados e restaurados pela associação. Durante a viagem, monitores contam a história da Maria Fumaça e da época do café, falando dos barões e do dia a dia dos trabalhadores das fazendas.

 Locomotiva a vapor 215 da Maria Fumaça, preta com detalhes vermelhos, parada na plataforma coberta da Estação Anhumas, em Campinas
A locomotiva 215 na Estação Anhumas, em Campinas, ponto de partida do passeio. Foto: Geogast / Wikimedia Commons, CC BY 4.0 (recortada)

A bordo também há música. O grupo Nostalgia Musical se apresenta nos vagões, as ferromoças vendem lembranças, camisetas, brinquedos e doces, e um carro-restaurante serve bebidas, lanches e salgados. O dinheiro das passagens ajuda a manter e restaurar locomotivas, vagões e estações.

A Maria Fumaça de Campinas percorre cerca de 25 quilômetros de trilhos da antiga Mogiana, entre Campinas e Jaguariúna.

O que se vê pela janela da Maria Fumaça

O trajeto atravessa paisagem rural e antigas fazendas de café, que dependiam da ferrovia para escoar a produção. No caminho ficam seis estações: Anhumas, Pedro Américo, Tanquinho, Desembargador Furtado, Carlos Gomes e Jaguariúna.

Um dos trechos mais bonitos é a ponte histórica sobre o rio Atibaia, do século 19, do tempo em que a Mogiana levou os trilhos para a região. Já na chegada a Jaguariúna, o trem passa pelo Viaduto Maria Fumaça, com cerca de 600 metros de extensão.

Como o trem anda devagar, dá tempo de fotografar a paisagem, as pontes e as estações antigas, e o apito e a fumaça da locomotiva viram parte do passeio.

A parada nas oficinas da Estação Carlos Gomes

No meio do caminho, o trem faz uma parada na Estação Carlos Gomes, onde ficam as oficinas de restauração da ABPF. Ali os passageiros podem ver de perto locomotivas e vagões em recuperação e um pequeno museu a céu aberto.

O acervo da associação tem locomotivas a vapor de várias ferrovias brasileiras. Uma das mais raras é uma locomotiva alemã fabricada em 1912 pela Borsig, e restam apenas três máquinas desse modelo no Brasil.

Na Estação Carlos Gomes, em Campinas, o trem para nas oficinas onde a ABPF restaura locomotivas e vagões.

Jaguariúna: estação de 1945, museu ferroviário e feirinha

O ponto final é a Estação de Jaguariúna, construída em 1945 para substituir a antiga estação Jaguary, perto do rio Jaguari. O conjunto da estação é tombado pelo Condephaat, o órgão de patrimônio do estado, e hoje funciona como Centro Cultural da cidade.

Plataforma coberta da Estação de Jaguariúna, com placa com o nome da cidade, colunas e portas vermelhas, ponto final da Maria Fumaça
A plataforma da Estação de Jaguariúna, ponto final do passeio. Foto: RicardoSAPO / Wikimedia Commons, CC BY 3.0 (recortada)

Dentro da estação fica o Museu Ferroviário Deusdolar Ferreira Gomes, com entrada gratuita. O acervo reúne placas ferroviárias, máquinas de escrever, telefones antigos e outros objetos da Mogiana, além de maquetes de trens. O museu leva o nome de um ferroviário que começou a carreira na Mogiana em 1952 e viveu 55 anos na cidade.

Maquete ferroviária com trilhos em curva, túnel, casinhas e estação em miniatura no museu da Estação de Jaguariúna
Maquete no museu ferroviário da Estação de Jaguariúna. Foto: Yara Carvalho / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Em volta da estação há bares, restaurantes e uma feirinha de artesanato, e o Centro Cultural recebe exposições, peças de teatro e shows ao longo do ano. Jaguariúna fica a cerca de 125 quilômetros da capital, e dá para emendar o passeio de trem com um almoço na cidade.

Trajetos mais curtos e saídas de Jaguariúna

Quem viaja com crianças pode escolher um percurso menor. Saindo de Campinas, o meio percurso vai até a Estação Tanquinho e leva cerca de 1 hora e meia, ida e volta.

Em 2026, o trem também voltou a sair de Jaguariúna. Aos sábados, a saída é às 14h, num minipercurso até a Estação Carlos Gomes, com cerca de 1 hora e 20 minutos de ida e volta. Nos feriados, há também o percurso completo saindo de Jaguariúna até Anhumas, em Campinas.

As passagens podem ser compradas com antecedência no site oficial da Maria Fumaça ou na bilheteria da estação. Em feriados prolongados e nas férias escolares, quando o movimento aumenta, vale garantir o lugar antes.

A ferrovia que ligava São Paulo a Minas Gerais

Os trilhos do passeio são o que restou da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, fundada em Campinas em 1872, cuja linha seguia do interior paulista até Minas Gerais. O trecho entre Campinas e Jaguariúna foi desativado no começo dos anos 1970, quando a ferrovia passou a usar outro traçado.

A ABPF foi fundada em 1977 pelo francês Patrick Dollinger para resgatar o patrimônio ferroviário do país, e o trecho de Campinas foi o primeiro projeto de preservação da associação. Os passeios começaram no início dos anos 1980 e nunca mais pararam.

Hoje a associação tem cerca de 4 mil associados, e boa parte do trabalho é feita por voluntários, com apoio de parceiros. Em todo o país, a ABPF já recuperou mais de 20 locomotivas e mais de 60 vagões e outros veículos ferroviários.

Outro passeio de trem a vapor no estado é o de Guararema, com estação de 1891, e entre Itu e Salto roda o trem que ganha versão de Halloween em outubro, o Hallowtrain.

A Maria Fumaça de Campinas é um passeio que funciona todo fim de semana, com fumaça, apito e vagões de madeira como nos tempos do café.

Você já andou de Maria Fumaça?

Compartilhe esse conteúdo em suas redes sociais