São José do Rio Pardo guarda a cabana de zinco onde Euclides da Cunha escreveu Os Sertões e a ponte que ele reconstruiu

Ponte metálica Euclides da Cunha sobre o Rio Pardo, em São José do Rio Pardo, refletida na água na luz dourada do fim da tarde
A Ponte Euclides da Cunha sobre o Rio Pardo. Foto: Marciojpamaral / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Em 1898, uma ponte de ferro desabou sobre o Rio Pardo, em São José do Rio Pardo, e o governo mandou um engenheiro para reconstruí-la. O engenheiro era Euclides da Cunha. Enquanto acompanhava a obra, ele escrevia, numa cabana de zinco e madeira à beira do rio, o livro que mudaria a literatura brasileira: Os Sertões.

A ponte ficou pronta em 1901 e continua lá, de pé, sobre o Rio Pardo. A cabana também: protegida por uma redoma de vidro, é o símbolo de São José do Rio Pardo, cidade do nordeste paulista, a cerca de 257 quilômetros da capital, que até hoje dedica uma semana inteira por ano ao escritor.

A ponte de Euclides da Cunha

A Ponte Euclides da Cunha é uma estrutura metálica apoiada em pilares de pedra, que atravessa o Rio Pardo perto do centro. Euclides chegou à cidade para comandar a reconstrução depois do desabamento e passou três anos ali, entre 1898 e 1901, até a inauguração.

Hoje a ponte é tombada pelo patrimônio histórico e é o cartão-postal de São José do Rio Pardo. No fim da tarde, a luz dourada se reflete no rio, entre as pedras e as corredeiras, e deixa a estrutura de ferro ainda mais bonita.

A cabana de zinco onde nasceu Os Sertões

Ao lado da ponte, à beira do rio, fica a cabana onde Euclides trabalhava. Feita de sarrafos de madeira e folhas de zinco, era o escritório improvisado de onde ele acompanhava a obra e onde escreveu e organizou boa parte de Os Sertões, o relato da Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, lançado em 1902 e hoje considerado um clássico da literatura brasileira.

Redoma de vidro que protege a cabana de zinco de Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo, à beira do rio, com a ponte ao fundo
A redoma que protege a Casa de Zinco, ao lado da ponte. Foto: Raphael Henrique Figueira / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Para não se perder com o tempo, a cabana foi coberta por uma redoma de vidro, e uma placa a apresenta como monumento nacional. Em volta, o Recanto Euclidiano reúne uma herma do escritor, doada pelo jornal O Estado de S. Paulo, onde ele publicou as reportagens sobre Canudos, e um espaço para homenagens.

Recanto Euclidiano, praça com monumento de concreto, herma e espelho d'água, entre árvores
O Recanto Euclidiano. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Em São José do Rio Pardo, Euclides da Cunha escreveu Os Sertões numa cabana de zinco à beira do rio, que ainda está lá.

A Casa de Cultura Euclides da Cunha

Enquanto trabalhava na ponte, Euclides morava com a família num casarão no centro, que hoje é a Casa de Cultura Euclides da Cunha. O museu guarda objetos e documentos do escritor, entre eles o banquinho e a mesa de madeira rústica que ele usava como escrivaninha. A visita é monitorada.

Sala da Casa de Cultura Euclides da Cunha em São José do Rio Pardo, com vitrines de objetos e quadros do sertão nas paredes
Uma das salas da Casa de Cultura Euclides da Cunha. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A Semana Euclidiana de São José do Rio Pardo

Em 15 de agosto de 1912, três anos depois da morte de Euclides, um grupo de amigos saiu do centro e caminhou até a cabana de zinco para lembrar o escritor. Foi o começo da Semana Euclidiana, que acontece desde então, todo mês de agosto, entre os dias 9 e 15.

A programação tem saraus, oficinas, feira literária e ciclos de estudos sobre a vida e a obra do escritor, que terminam com a Maratona Intelectual Euclidiana, uma prova sobre Os Sertões. Em 2010, a Semana Euclidiana entrou para o calendário oficial do estado.

A janela da República

São José do Rio Pardo guarda outra passagem histórica. Em agosto de 1889, três meses antes da Proclamação da República, a cidade recebeu um comício republicano liderado por Francisco Glicério, chefe do partido republicano paulista, que teria desfraldado ali, pela primeira vez, a bandeira da República. Monarquistas chegaram a atacar o hotel onde os republicanos estavam hospedados.

Janela antiga de madeira com vidros coloridos azuis e verdes numa parede verde
A Janela Histórica da Proclamação da República. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A janela de onde os republicanos falaram ao público foi preservada e hoje é conhecida como Janela Histórica da Proclamação da República.

Matriz neogótica e mosteiro de monges

A Igreja Matriz de São José foi projetada por Ramos de Azevedo, o mesmo arquiteto do Theatro Municipal de São Paulo, em estilo neogótico, com duas torres pontiagudas, rosácea na fachada e vitrais trazidos da Dinamarca.

Fachada neogótica amarela da Igreja Matriz de São José, em São José do Rio Pardo, com duas torres pontiagudas e rosácea
A Matriz de São José, projeto de Ramos de Azevedo. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora de São Bernardo, fundado nos anos 1940, abriga a paróquia de São Roque e uma capela onde há missas todos os dias. Nelas, os monges cantam durante a celebração.

Fachada branca e laranja do Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora de São Bernardo, com janelas em arco e colunas
O Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora de São Bernardo. Foto: Ken Chu / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Outros passeios em São José do Rio Pardo

No alto de um morro, um Cristo Redentor de 17 metros, dos anos 1940, tem mirante com vista para a cidade e a região. Às margens do rio, a Ilha São Pedro é um parque com minizoológico. A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, de 1917, foi construída como promessa pelo fim da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola.

O centro tem ainda o Museu Riopardense, na antiga Casa de Câmara e Cadeia, o Mercado Cultural, num prédio de 1926 na Praça Barão do Rio Branco, e o Centro Cultural Ítalo-Brasileiro, que nasceu em 1886 como sociedade de ajuda aos imigrantes italianos. Na zona rural, um roteiro leva a alambiques de cachaça artesanal.

Dicas para visitar São José do Rio Pardo

São José do Rio Pardo fica a cerca de 257 quilômetros de São Paulo e faz parte do Circuito Café com Leite. A ponte, a cabana, o Recanto Euclidiano e a Casa de Cultura ficam perto uns dos outros e podem ser vistos a pé numa manhã. Para ver a cidade em clima de festa, vá na Semana Euclidiana, em agosto.

Na mesma região, Mococa tem fazendas históricas, e Águas da Prata é o começo do Caminho da Fé.

Uma ponte de ferro, uma cabana de zinco e um livro que virou clássico: em São José do Rio Pardo, a história de Os Sertões ainda pode ser visitada.

Você sabia que Os Sertões foi escrito no interior de São Paulo?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.