Em 1898, uma ponte de ferro desabou sobre o Rio Pardo, em São José do Rio Pardo, e o governo mandou um engenheiro para reconstruí-la. O engenheiro era Euclides da Cunha. Enquanto acompanhava a obra, ele escrevia, numa cabana de zinco e madeira à beira do rio, o livro que mudaria a literatura brasileira: Os Sertões.
A ponte ficou pronta em 1901 e continua lá, de pé, sobre o Rio Pardo. A cabana também: protegida por uma redoma de vidro, é o símbolo de São José do Rio Pardo, cidade do nordeste paulista, a cerca de 257 quilômetros da capital, que até hoje dedica uma semana inteira por ano ao escritor.
A ponte de Euclides da Cunha
A Ponte Euclides da Cunha é uma estrutura metálica apoiada em pilares de pedra, que atravessa o Rio Pardo perto do centro. Euclides chegou à cidade para comandar a reconstrução depois do desabamento e passou três anos ali, entre 1898 e 1901, até a inauguração.
Hoje a ponte é tombada pelo patrimônio histórico e é o cartão-postal de São José do Rio Pardo. No fim da tarde, a luz dourada se reflete no rio, entre as pedras e as corredeiras, e deixa a estrutura de ferro ainda mais bonita.
A cabana de zinco onde nasceu Os Sertões
Ao lado da ponte, à beira do rio, fica a cabana onde Euclides trabalhava. Feita de sarrafos de madeira e folhas de zinco, era o escritório improvisado de onde ele acompanhava a obra e onde escreveu e organizou boa parte de Os Sertões, o relato da Guerra de Canudos, no sertão da Bahia, lançado em 1902 e hoje considerado um clássico da literatura brasileira.

Para não se perder com o tempo, a cabana foi coberta por uma redoma de vidro, e uma placa a apresenta como monumento nacional. Em volta, o Recanto Euclidiano reúne uma herma do escritor, doada pelo jornal O Estado de S. Paulo, onde ele publicou as reportagens sobre Canudos, e um espaço para homenagens.

Em São José do Rio Pardo, Euclides da Cunha escreveu Os Sertões numa cabana de zinco à beira do rio, que ainda está lá.
A Casa de Cultura Euclides da Cunha
Enquanto trabalhava na ponte, Euclides morava com a família num casarão no centro, que hoje é a Casa de Cultura Euclides da Cunha. O museu guarda objetos e documentos do escritor, entre eles o banquinho e a mesa de madeira rústica que ele usava como escrivaninha. A visita é monitorada.

A Semana Euclidiana de São José do Rio Pardo
Em 15 de agosto de 1912, três anos depois da morte de Euclides, um grupo de amigos saiu do centro e caminhou até a cabana de zinco para lembrar o escritor. Foi o começo da Semana Euclidiana, que acontece desde então, todo mês de agosto, entre os dias 9 e 15.
A programação tem saraus, oficinas, feira literária e ciclos de estudos sobre a vida e a obra do escritor, que terminam com a Maratona Intelectual Euclidiana, uma prova sobre Os Sertões. Em 2010, a Semana Euclidiana entrou para o calendário oficial do estado.
A janela da República
São José do Rio Pardo guarda outra passagem histórica. Em agosto de 1889, três meses antes da Proclamação da República, a cidade recebeu um comício republicano liderado por Francisco Glicério, chefe do partido republicano paulista, que teria desfraldado ali, pela primeira vez, a bandeira da República. Monarquistas chegaram a atacar o hotel onde os republicanos estavam hospedados.

A janela de onde os republicanos falaram ao público foi preservada e hoje é conhecida como Janela Histórica da Proclamação da República.
Matriz neogótica e mosteiro de monges
A Igreja Matriz de São José foi projetada por Ramos de Azevedo, o mesmo arquiteto do Theatro Municipal de São Paulo, em estilo neogótico, com duas torres pontiagudas, rosácea na fachada e vitrais trazidos da Dinamarca.

O Mosteiro Cisterciense de Nossa Senhora de São Bernardo, fundado nos anos 1940, abriga a paróquia de São Roque e uma capela onde há missas todos os dias. Nelas, os monges cantam durante a celebração.

Outros passeios em São José do Rio Pardo
No alto de um morro, um Cristo Redentor de 17 metros, dos anos 1940, tem mirante com vista para a cidade e a região. Às margens do rio, a Ilha São Pedro é um parque com minizoológico. A Gruta de Nossa Senhora de Lourdes, de 1917, foi construída como promessa pelo fim da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola.
O centro tem ainda o Museu Riopardense, na antiga Casa de Câmara e Cadeia, o Mercado Cultural, num prédio de 1926 na Praça Barão do Rio Branco, e o Centro Cultural Ítalo-Brasileiro, que nasceu em 1886 como sociedade de ajuda aos imigrantes italianos. Na zona rural, um roteiro leva a alambiques de cachaça artesanal.
Dicas para visitar São José do Rio Pardo
São José do Rio Pardo fica a cerca de 257 quilômetros de São Paulo e faz parte do Circuito Café com Leite. A ponte, a cabana, o Recanto Euclidiano e a Casa de Cultura ficam perto uns dos outros e podem ser vistos a pé numa manhã. Para ver a cidade em clima de festa, vá na Semana Euclidiana, em agosto.
Na mesma região, Mococa tem fazendas históricas, e Águas da Prata é o começo do Caminho da Fé.
Uma ponte de ferro, uma cabana de zinco e um livro que virou clássico: em São José do Rio Pardo, a história de Os Sertões ainda pode ser visitada.
Você sabia que Os Sertões foi escrito no interior de São Paulo?


