A menos de uma hora de São Paulo, Jundiaí guarda um pedaço da Itália no interior paulista. Nos bairros rurais, famílias de imigrantes italianos plantam uva há mais de um século, abrem as adegas para degustação e servem massa caseira com vista para os parreirais. Foi ali, num sítio do bairro do Traviú, que nasceu a uva mais famosa da cidade.
Jundiaí faz parte do Circuito das Frutas, roteiro de cidades vizinhas conhecidas pelos pomares, e é chamada de Terra da Uva. Além das adegas, tem um teatro de 1911 restaurado por Lina Bo Bardi, um casarão do tempo dos barões e parques grandes e gratuitos para passar o dia.
A uva Niágara Rosada, nascida em Jundiaí
Em 1933, no sítio do imigrante italiano Antônio Carbonari, no Traviú, aconteceu algo inesperado: no meio das uvas brancas da variedade Niágara, apareceram três cachos cor-de-rosa. Era uma mutação espontânea, e os ramos da nova uva foram enxertados e multiplicados pela região. Assim surgiu a Niágara Rosada, hoje uma das uvas de mesa mais consumidas do Brasil.
A novidade mudou a história da cidade. Já em 1934, Jundiaí fez a primeira Festa da Uva, que se tornou tradição e, desde 1953, acontece no Parque da Uva, construído especialmente para o evento. Mais recentemente, a uva Niágara de Jundiaí ganhou o selo de Indicação Geográfica, que reconhece a ligação do produto com a região.
A uva Niágara Rosada surgiu em 1933, por mutação espontânea, num sítio do bairro do Traviú, em Jundiaí.
Adegas e a Rota do Vinho de Jundiaí
O jeito mais gostoso de conhecer Jundiaí é pelas rotas turísticas organizadas pela prefeitura. São vários roteiros temáticos, como a Rota da Uva, a Rota do Vinho e a Rota da Cultura Italiana, que reúnem adegas, sítios, empórios e restaurantes nos bairros rurais do Caxambu, Traviú, Roseira, Toca e Ivoturucaia. Na Rota do Vinho, são mais de 20 adegas abertas ao público, várias delas centenárias e tocadas pela mesma família há gerações.

Uma das mais conhecidas é a Adega Maziero, no Caxambu. A família chegou ao Brasil em 1888 e se estabeleceu no bairro, já conhecido pelas vinícolas. Em 2007, um vinho rosé da casa foi usado na missa celebrada pelo papa Bento XVI no Brasil, e a fama de “vinho do papa” pegou. A adega recebe visitantes sem agendamento, com degustação e empório de vinhos, pães, queijos e doces.
Nas rotas, os sítios também vendem frutas da estação, mel, geleias e conservas, e em algumas adegas dá para ver os tonéis onde o vinho envelhece.
Cultura italiana e comida de cantina
A herança italiana está também na mesa. No Traviú, o Travitália ocupa terras da antiga fazenda comprada em 1893 por famílias italianas, e o nome junta Traviú, palavra indígena que significa companheiro de viagem, e Itália. As massas são feitas pela família, e o salão fica no meio do jardim, com vista para os parreirais.

O restaurante faz parte da Rota da Cultura Italiana, uma das rotas turísticas da cidade. Para conhecer outra parte dessa história, a cidade tem uma fazenda que hospedou um imperador e virou vinícola, como contamos no artigo sobre a fazenda do imperador em Jundiaí.
Teatro Polytheama e o centro histórico
No centro, o Teatro Polytheama foi inaugurado em 1911 e, em 1920, era o maior teatro do estado de São Paulo, com 2.920 lugares. Depois de décadas de abandono, foi comprado pela prefeitura nos anos 1980 e restaurado num projeto de Lina Bo Bardi, com os arquitetos André Vainer e Marcelo Ferraz. Reaberto em 1996, foi o último trabalho da arquiteta, que manteve as paredes originais nuas e as estruturas de ferro à mostra.

Perto dali fica o Solar do Barão, casarão cuja construção começou na década de 1790 para a família Queiroz Telles, ligada ao café e à cana. Desde 1982, o prédio abriga o Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, com salas mobiliadas, objetos da imigração italiana e um jardim de cerca de 1.600 metros quadrados. O museu abre de terça a sábado.

Quem gosta de trem pode emendar com o Museu da Companhia Paulista, nas antigas oficinas ferroviárias, que está na nossa lista de estações históricas do interior de SP.
Jardim Botânico e Parque da Cidade
Para quem quer verde, o Jardim Botânico de Jundiaí tem cerca de 150 mil metros quadrados, com jardins temáticos japonês, africano e italiano, orquidário, cascatas e trilhas. A entrada é gratuita, e há visitas monitoradas sem custo.

Já o Parque da Cidade fica às margens da represa que abastece Jundiaí e tem cerca de 500 mil metros quadrados. São duas pistas de caminhada de 2,1 quilômetros cada, áreas de piquenique, quadras e trilhas, tudo de graça.

Dicas para visitar Jundiaí
Jundiaí fica a cerca de 60 quilômetros da capital, com acesso pelas rodovias Anhanguera e Bandeirantes, o que faz dela um dos bate-voltas mais fáceis a partir de São Paulo. As adegas abrem o ano todo, mas a melhor época para ver os parreirais carregados e provar a Niágara fresca é o verão, quando acontece a colheita e a Festa da Uva. No resto do ano, o programa é a degustação de vinhos, sucos e licores. Vá de carro, porque as adegas ficam espalhadas pelos bairros rurais, e escolha alguém para dirigir se for degustar.
Uvas, vinhos de família, massa caseira e um teatro com assinatura de Lina Bo Bardi fazem de Jundiaí um passeio perfeito para quem mora em São Paulo e quer se sentir longe sem ir longe.
Você já provou a uva Niágara direto do parreiral?


