Anos antes da Lei Áurea, a fazendeira que dá nome à Fazenda Dona Carolina, no interior paulista, fez o que quase ninguém da elite do café fazia: libertou as pessoas escravizadas da sua fazenda e ainda deu a elas um pedaço de terra do mesmo tamanho da propriedade em que morava.
A fazenda fica entre Itatiba e Bragança Paulista e virou hotel histórico. Hoje ela recebe visitantes no day use e oferece passeios guiados pela plantação de café, pelo alambique e pela história da casa.
A história da Fazenda Dona Carolina
A fazenda foi construída em 1872 por Carolina e o marido, José Alves Cardoso. Na época, ela se chamava Fazenda Jaboticabal e era uma importante produtora de café, como tantas outras da região.
O que a tornou diferente foi a atitude da dona. Republicana e abolicionista assumida, Carolina libertou os escravizados da fazenda antes da abolição oficial, em maio de 1888, e doou a eles 100 alqueires de terra, cerca de 2,4 milhões de metros quadrados. A área ficou conhecida como Bairro dos Pretos e ainda guarda a memória da comunidade formada pelos libertos e seus descendentes.
Antes da Lei Áurea, Dona Carolina libertou os escravizados da fazenda e doou a eles 100 alqueires de terra.
Depois que ela morreu, em 1919, a fazenda passou a ser chamada pelo seu nome. Pela propriedade, as camélias, flor que virou símbolo do movimento abolicionista no Brasil, continuam colorindo os jardins.
Um hotel histórico desde 1993
Em 1993, os descendentes de Dona Carolina decidiram abrir a fazenda ao público e a transformaram em hotel histórico. O conjunto colonial foi restaurado e hoje ocupa 100 hectares cercados por Mata Atlântica.

O casarão branco de janelas azuis, os pátios de pedra e o lago entre os morros formam o cenário. Nas trilhas, com sorte, dá para ver tucanos, jacus, seriemas, capivaras e macacos-bugios.
A comida também é parte do passeio. A fazenda tem vários espaços para as refeições, como o Café do Bosque, onde é servido o café da manhã, o restaurante Seo Oscar, com varanda voltada para a mata, e o Quiosque, com forno a lenha e churrasqueira. À noite, o casarão abriga um piano-bar.
Day use na Fazenda Dona Carolina
Quem não vai se hospedar pode passar o dia na fazenda. O Day Use Clássico vai das 10h às 18h e inclui almoço com bebidas não alcoólicas, chá da tarde colonial, piscinas, trilhas ecológicas e o setor de aventura, com tirolesa, caiaque, arco e flecha, slackline e pesca esportiva, conforme a programação do dia.

Para as famílias, o day use tem recreação com monitores para crianças a partir de 3 anos, com brincadeiras ao ar livre e visitas à fazendinha para conhecer os animais de perto. Enquanto os pequenos se divertem, os adultos aproveitam a piscina, as trilhas ou uma boa conversa à sombra das árvores centenárias.
Quem quiser chegar mais cedo pode incluir o café da manhã no pacote, com entrada às 8h. A reserva é obrigatória, e os valores atualizados estão no site oficial do hotel.
Tour do café, da cachaça e da história
O ponto alto para quem gosta de história são os passeios guiados, cobrados à parte e feitos com reserva. São três: o Tour do Café, que passa pela plantação e pelas antigas instalações de produção e termina na xícara do café da marca da fazenda; o Tour da Cachaça, que mostra a destilação e o envelhecimento em barris de carvalho; e o Tour Histórico, em que um guia conta os mais de 150 anos da propriedade.
A fazenda tem ainda uma fazendinha com passeio de trator e contato com os animais, que funciona em alguns dias da semana.
Cavalos, charrete e piscina aquecida
Cavalgar é uma das atividades mais procuradas da Fazenda Dona Carolina. O centro hípico tem instrutores e atende desde quem nunca montou até cavaleiros experientes, com trilhas, pistas de grama e de areia e passeios de charrete. As crianças pequenas podem andar de pônei. As atividades com cavalos são cobradas à parte.
Para relaxar, a piscina é climatizada e fica aos pés de uma mangueira e de árvores centenárias, perto da área histórica. Há também redário, campos de futebol e vôlei, quadra de tênis e salão de jogos. E a cachaça produzida na própria fazenda pode ser provada na cachaçaria, um bar em estilo boteco.
A capela da fazenda
Num terraço com vista para o vale fica a capela da fazenda, pequena e branca, com fachada ornamentada e uma janela redonda no alto.

Lá dentro, um arco azul emoldura o altar antigo, com imagens de santos e um lustre de velas. A capela ainda recebe cerimônias religiosas e casamentos.

Jantar italiano aberto ao público
Para quem quer só uma refeição, a Trattoria Villa Carolina, restaurante italiano da fazenda, abre ao público às sextas e aos sábados, das 18h às 22h, com reserva de mesa. A cozinha prioriza produtores da região e ingredientes da estação.
Dicas para visitar a Fazenda Dona Carolina
A Fazenda Dona Carolina fica na Estrada Municipal Manoel Stefani, no km 39,5 da Rodovia Alkindar Monteiro Junqueira, a estrada que liga Itatiba a Bragança Paulista, a cerca de 110 quilômetros de São Paulo. Apesar de ficar a poucos minutos de Bragança, ela pertence a Itatiba.
Reserve o day use, os tours e a mesa da Trattoria com antecedência pelos canais oficiais do hotel. Leve roupa de banho, protetor solar e tênis para as trilhas.
Dá para combinar a visita com um passeio pelo centro de Itatiba, que tem zoológico com museu de dinossauros e almoço caipira, seguindo a rodovia no sentido de Itatiba.
Uma casa de 1872, uma dona à frente do seu tempo e um dia inteiro entre café, mata e piscina: a Fazenda Dona Carolina conta uma história que merece ser lembrada.
Você conhecia a história de Dona Carolina, a fazendeira que libertou os escravizados antes da Lei Áurea?




