Ilha do Cardoso, no litoral sul de SP, é um parque estadual onde só se chega de barco e os botos aparecem na travessia

Grupo de botos-cinza nadando na água calma do canal, com o mangue da Ilha do Cardoso ao fundo
Botos-cinza pescando junto com atobás nas águas da Ilha do Cardoso. Foto: Mariane B. S. Novelli (Marianebsnovelli) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

A Ilha do Cardoso não tem estradas nem carros. Para chegar, é preciso embarcar no porto de Cananéia e atravessar o canal, e muitas vezes os botos-cinza aparecem no meio do caminho, nadando em grupo perto do barco. Do outro lado esperam mangue, praias quase vazias, cachoeiras e vilas de pescadores que vivem ali há gerações.

A ilha inteira é um parque estadual desde 1962, no extremo sul do litoral paulista, quase na divisa com o Paraná. Cerca de 90% do território é coberto de Mata Atlântica, e é um dos lugares mais preservados do estado.

Como chegar à Ilha do Cardoso

O ponto de partida é Cananéia, a cerca de 270 quilômetros de São Paulo pela Rodovia Régis Bittencourt. Do porto da cidade saem as embarcações credenciadas pelo parque, são 49 ao todo, que levam os visitantes até os núcleos de visitação e as comunidades da ilha.

Rio de águas escuras desaguando no mar entre o mangue, com faixa de areia e um morro ao fundo, na Praia do Pereirinha
A Praia do Pereirinha, na Ilha do Cardoso. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O destino mais procurado é o Núcleo Perequê, com a Praia do Pereirinha logo ao lado. Quem quer ir mais longe segue de barco até o Marujá, a maior vila da ilha, no lado sul. Combine o horário de volta com o barqueiro antes de desembarcar.

Os botos-cinza no caminho da Ilha do Cardoso

As águas calmas entre a Ilha do Cardoso, Cananéia e a Ilha Comprida são casa de grupos de botos-cinza. Eles costumam se aproximar da costa em famílias e aparecem com frequência já no trajeto de barco, subindo para respirar a poucos metros das embarcações.

Para quem quer ver os botos com mais calma, há passeios de observação saindo do píer da Vila do Marujá, feitos pelos próprios moradores. Não há garantia de encontro, mas a chance é boa, e o silêncio do motor desligado no meio do canal já vale o passeio.

Na Ilha do Cardoso, a travessia de barco já faz parte do passeio: os botos-cinza costumam aparecer no caminho.

Núcleo Perequê: passarela no mangue e museu

No Núcleo Perequê, os visitantes são recebidos por guias, que explicam a fauna e a flora da ilha antes do passeio. De lá sai a passarela de madeira que atravessa o mangue, uma das atrações mais conhecidas do parque, por cima do rio e entre as raízes das árvores.

Passarela de madeira suspensa atravessando um rio no meio do mangue da Ilha do Cardoso
A passarela de madeira sobre o mangue. Foto: Iuri Bertolini / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O centro de visitantes tem um museu de história natural, com peças sobre a vida marinha da região, incluindo esqueletos de grandes animais do mar. É uma boa parada para entender o que se vai ver depois nas trilhas e nas praias.

Esqueleto completo de um grande animal marinho pendurado no salão do museu da Ilha do Cardoso
Esqueleto de animal marinho no museu da ilha, na área da Pereirinha. Foto: Ferik80 / Wikimedia Commons, CC BY 4.0 (recortada)

No Rio Perequê dá para remar de caiaque e de stand-up paddle. À noite, o parque oferece a focagem de jacarés, um passeio com lanterna pelo rio para encontrar os jacarés-de-papo-amarelo que vivem ali.

Torre de observação de madeira à beira de um rio com banco de areia e um barco pequeno, cercada de mata
Torre de observação à beira do rio, no Parque Estadual da Ilha do Cardoso. Foto: Iuri Bertolini / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Pereirinha: a praia com limite de mil visitantes

Depois de cerca de um quilômetro de caminhada a partir do Núcleo Perequê, chega-se à Praia do Pereirinha, colada à do Itacuruçá. A água é calma e rasa, boa para famílias com crianças, e é ali que o Rio Perequê encontra o mar.

Por ser a praia mais visitada do parque, ela tem um limite de mil visitantes por dia. Em feriados e no verão, chegue cedo ao porto de Cananéia para não ficar de fora.

Marujá, Cambriú e as vilas caiçaras

Sete comunidades caiçaras vivem dentro do parque: Marujá, Enseada da Baleia, Pontal de Leste, Foles, Cambriú, Itacuruçá e Pereirinha. São famílias de pescadores que já moravam na ilha antes da criação do parque e hoje tocam as pousadas, os restaurantes e os passeios.

Canal de água calma refletindo as serras ao fundo, com plantas de flores vermelhas na margem, no Marujá
O canal entre a ilha e o continente, no Marujá. Foto: João P. Burini / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O Marujá é a vila mais estruturada para receber visitantes, com cerca de 50 famílias, pousadas rústicas, campings, almoço com peixe fresco e rodas de fandango, a música e dança tradicional dos caiçaras. É de lá que saem os barcos para as praias mais distantes do sul da ilha.

Pedras arredondadas na areia molhada da Praia do Cambriú, com morros cobertos de mata ao fundo
A Praia do Cambriú, uma das comunidades caiçaras da ilha. Foto: Rodney Domingues / Wikimedia Commons, CC BY 2.0 (recortada)

A ilha também abriga uma aldeia guarani-mbyá, estabelecida ali em 1992. Desde 2023, uma associação de moradores do Itacuruçá e da Pereirinha cuida da operação do turismo na área do Núcleo Perequê, em parceria com o governo do estado.

Praias desertas e a Cachoeira Grande

Na face da Ilha do Cardoso voltada para o mar aberto ficam praias longas e quase sempre vazias, como o Fole Grande, o Fole Pequeno, Ipanema e a Laje, com piscinas naturais entre as pedras. A Praia do Marujá, sozinha, tem cerca de 15 quilômetros de areia.

Praia de areia clara com pedras e bromélias na beira, e uma ilhota coberta de mata no mar
Pedras na Praia do Fole, na face da ilha voltada para o mar aberto. Foto: Guimaia13 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O passeio de água doce mais tradicional é o da Cachoeira Grande. A partir do Marujá, são cerca de 15 minutos de lancha e mais uns 20 minutos de trilha leve até um poço de água clara, bom para banho. Para quem tem fôlego, há trilhas longas, como a da Cachoeira Ipanema, com cerca de 22 quilômetros ida e volta, e a das Piscinas da Laje, com 25. Todas as trilhas do parque exigem monitor ambiental.

Guarás, mangue e o cerco-fixo

A Ilha do Cardoso faz parte do Lagamar, o complexo de mangues e canais entre Iguape, Cananéia e Paranaguá. Já foram catalogadas quase mil espécies de plantas e cerca de 436 de aves na ilha, além de bugios, lontras, veados-mateiros e o papagaio-de-cara-roxa. Nos mangues, aparecem aves como o guará, de penas vermelhas.

Guarás de penas vermelhas pousados nos galhos do mangue da Ilha do Cardoso
Guarás no manguezal da ilha. Foto: Mariane B. S. Novelli (Marianebsnovelli) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Nos canais em volta da ilha, repare nos cercos-fixos: armadilhas de pesca feitas de varas fincadas na água, em forma de seta, que guiam os peixes até um cercado. É uma técnica artesanal antiga, ainda usada pelos pescadores caiçaras da região.

Vista aérea de um cerco-fixo, armadilha de pesca feita de varas em forma de seta e círculo, na água esverdeada
Um cerco-fixo, armadilha de pesca artesanal tradicional da região, visto de cima. Foto: Mariane B. S. Novelli (Marianebsnovelli) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Sambaquis e a criação do parque

Muito antes dos caiçaras, a ilha foi ocupada por povos que deixaram sambaquis, montes de conchas e restos de comida que hoje são sítios arqueológicos. Há também ruínas do período colonial espalhadas pela mata.

Foi justamente para proteger esses sítios e a floresta que o professor Paulo Duarte, da USP, propôs a criação do parque no fim dos anos 1950, quando a ilha começava a atrair loteamentos. O decreto saiu em 3 de julho de 1962, e o plano previa também uma base de pesquisa do Instituto Oceanográfico da USP na ilha.

Dicas para visitar a Ilha do Cardoso

Não há energia elétrica pública na ilha: pousadas e casas usam geradores e placas solares, e o sinal de celular é fraco ou inexistente. Leve dinheiro, lanterna, repelente, protetor solar e calçado fechado para as trilhas. As pousadas são simples e lotam em feriados, então reserve com antecedência.

É proibido acampar nas praias fora dos campings, levar animais domésticos e retirar plantas, conchas ou bichos. Não há coleta de lixo na ilha, então todo o lixo volta com você para o continente. Para completar a viagem pelo Vale do Ribeira, a cidade histórica de Iguape, o Parque Carlos Botelho e as cavernas do PETAR ficam na mesma região.

Botos no caminho, mangue sob os pés e uma vila onde o fandango ainda toca: a Ilha do Cardoso é o litoral paulista do jeito que ele era antes das estradas.

Você faria a travessia de barco para conhecer a Ilha do Cardoso?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.