Pirapora do Bom Jesus, a 54 km de SP, tem santuário de romaria, Casa do Samba e rampa de voo livre com vista da serra

Casas coloridas e igrejas de Pirapora do Bom Jesus refletidas no rio, com morros verdes ao fundo
Pirapora do Bom Jesus vista da margem do rio. Foto: OS2Warp / Wikimedia Commons, domínio público (recortada)

Há quase 300 anos, romeiros caminham até Pirapora do Bom Jesus para ver a imagem de madeira encontrada numa pedra às margens do Tietê. A cidade, a 54 quilômetros de São Paulo, cresceu em volta do santuário, e foi nos barracões onde os romeiros dormiam que o samba de bumbo ganhou força, uma história que hoje tem casa própria.

Do alto do Morro do Capuava, pilotos de parapente e asa-delta decolam com vista para a serra e para o vale do Tietê. E, nos fins de semana, as barraquinhas em volta da igreja vendem cocadas e doces caseiros.

Pirapora do Bom Jesus e a imagem achada no Tietê

Conta a tradição que, por volta de 1725, uma imagem do Senhor Bom Jesus foi encontrada apoiada numa pedra às margens do rio. As versões variam sobre quem a achou, pescadores, tropeiros ou um morador da região, mas todas concordam no lugar: a beira do Tietê, onde hoje fica a cidade.

A imagem, esculpida em madeira, tem cerca de 1,80 metro. Ela escapou de um incêndio no barracão onde estava guardada, o que os devotos contam como o primeiro milagre. A primeira festa em louvor ao Bom Jesus aconteceu no início da década de 1730, e a tradição segue até hoje.

O Santuário do Senhor Bom Jesus

O santuário é o ponto mais visitado de Pirapora do Bom Jesus. A igreja, de fachada em estilo jesuíta, com duas torres, foi reformada e elevada a santuário no fim do século 19. É conhecida como o primeiro santuário cristocêntrico do Brasil, ou seja, dedicado a Jesus.

Fachada amarela e branca do Santuário do Senhor Bom Jesus de Pirapora, com duas torres e estátuas na entrada
O Santuário do Senhor Bom Jesus de Pirapora. Foto: Paulo Li / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Lá dentro, a imagem do Bom Jesus fica no altar principal, colorido e dourado, cercado de flores e de fiéis. A grande festa acontece no começo de agosto, com missa cantada, procissão e dezenas de milhares de romeiros, muitos chegando a pé. A Semana Santa é o outro período de movimento forte, e o resto do ano os visitantes chegam principalmente aos domingos.

Altar dourado e colorido com colunas e arco, com a imagem do Senhor Bom Jesus ao centro, cercada de flores
O altar com a imagem do Senhor Bom Jesus. Foto: Paulo Li / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Pirapora do Bom Jesus recebe romeiros desde a década de 1730, quando aconteceu a primeira festa ao Bom Jesus.

Nos fins de semana, principalmente aos domingos, a praça em volta do santuário vira feira, com barracas de artigos religiosos, fitinhas, terços e doces caseiros. Os carrinhos de doce vendem cocadas de vários sabores, doce de abóbora, de batata-doce, de cidra e quebra-queixo.

O samba dos barracões dos romeiros

Por décadas, os romeiros chegavam em grupos e passavam dias na cidade, dormindo nos barracões da igreja, que abrigavam de graça quem não tinha dinheiro para pousada. Foi ali, entre o fim do século 19 e meados do 20, que o samba de bumbo floresceu: os grupos vindos de várias cidades do interior tocavam o bumbo, cantavam e travavam desafios de versos improvisados noite adentro.

Salão da Casa do Samba com mesas de toalha verde, chão de tijolos e fotos antigas de sambistas nas paredes
O Espaço Samba Paulista Vivo, a Casa do Samba. Foto: Paulo Li / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Em 1930, o sambista Honorato Missé formou o primeiro grupo de samba de roda conhecido da cidade, e alguns de seus integrantes continuaram tocando por décadas. Os barracões foram demolidos nos anos 1950, mas a memória ficou. O Espaço Samba Paulista Vivo, conhecido como Casa do Samba, mantém um centro de memória com fotos, instrumentos e acervo sobre os sambistas da cidade.

Portal dos Romeiros e Praça do Encontro

Na chegada à cidade, o Portal dos Romeiros homenageia quem fez e ainda faz a caminhada até o santuário. É uma passagem de pedra de 30 metros, com arco de ferro e a inscrição com o nome do portal.

Portal de pedra com arco de ferro e a inscrição Portal dos Romeiros, com um caminho de paralelepípedos
O Portal dos Romeiros. Foto: Paulo Li / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

No centro, a Praça do Encontro tem um monumento dedicado aos milagres atribuídos ao Senhor Bom Jesus e uma fonte. Perto dali funciona a Escola de Arte Sacra e Ofícios, criada em 2001, onde jovens aprendem a fazer peças religiosas sob encomenda.

O seminário e o mirante dos 113 degraus

No alto, atrás do santuário, fica o Seminário Premonstratense, em atividade desde 1898. O prédio abriga os cônegos da Ordem de São Norberto, que cuidam do santuário, e chama a atenção pela igreja alta, de tom dourado.

Igreja alta de tom dourado do Seminário Premonstratense, com rosácea e torre, entre palmeiras
O Seminário Premonstratense, de 1898. Foto: Paulo Li / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Para chegar ao mosteiro são 113 degraus, e a subida vale pela vista: lá de cima se vê a cidade inteira, com o santuário, as casas coloridas e o rio.

Voo livre em Pirapora do Bom Jesus

O Morro do Capuava é o ponto de voo livre mais próximo da capital, usado por dezenas de pilotos de parapente e asa-delta. Quem não voa pode subir pela trilha curta até o topo, onde há um cruzeiro e uma vista ampla do vale do Tietê e das serras.

Cruzeiro branco no alto do morro com a vista da cidade e das serras ao fundo
O cruzeiro no alto do Capuava Parque. Foto: Paulo Li / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O acesso à rampa é por uma estrada de terra, sinalizada com placas de “Voo Livre”. A área tem ainda trilhas para mountain bike e espaço para piquenique. Em dias de vento bom, vale ficar um tempo só olhando as decolagens.

Dicas para visitar Pirapora do Bom Jesus

Pirapora do Bom Jesus fica a cerca de 54 quilômetros de São Paulo, pela Rodovia Castelo Branco e pela Estrada dos Romeiros, e faz parte do Roteiro dos Bandeirantes, além de ser ponto de passagem de quem faz caminhadas de fé pela região. É um bom bate-volta: o centro, com o santuário, a praça e a feira, se percorre a pé. Os domingos são os dias mais movimentados.

A cidade é um dos quatro municípios da Serra do Japi, e a vizinha Santana de Parnaíba tem centro histórico do período colonial. Para quem faz roteiros de fé, Aparecida é a outra grande parada de romeiros no estado.

Uma imagem achada no rio, um samba nascido nos barracões e cocada no carrinho: Pirapora do Bom Jesus guarda as tradições dos romeiros pertinho da capital.

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.