Há quase 300 anos, romeiros caminham até Pirapora do Bom Jesus para ver a imagem de madeira encontrada numa pedra às margens do Tietê. A cidade, a 54 quilômetros de São Paulo, cresceu em volta do santuário, e foi nos barracões onde os romeiros dormiam que o samba de bumbo ganhou força, uma história que hoje tem casa própria.
Do alto do Morro do Capuava, pilotos de parapente e asa-delta decolam com vista para a serra e para o vale do Tietê. E, nos fins de semana, as barraquinhas em volta da igreja vendem cocadas e doces caseiros.
Pirapora do Bom Jesus e a imagem achada no Tietê
Conta a tradição que, por volta de 1725, uma imagem do Senhor Bom Jesus foi encontrada apoiada numa pedra às margens do rio. As versões variam sobre quem a achou, pescadores, tropeiros ou um morador da região, mas todas concordam no lugar: a beira do Tietê, onde hoje fica a cidade.
A imagem, esculpida em madeira, tem cerca de 1,80 metro. Ela escapou de um incêndio no barracão onde estava guardada, o que os devotos contam como o primeiro milagre. A primeira festa em louvor ao Bom Jesus aconteceu no início da década de 1730, e a tradição segue até hoje.
O Santuário do Senhor Bom Jesus
O santuário é o ponto mais visitado de Pirapora do Bom Jesus. A igreja, de fachada em estilo jesuíta, com duas torres, foi reformada e elevada a santuário no fim do século 19. É conhecida como o primeiro santuário cristocêntrico do Brasil, ou seja, dedicado a Jesus.

Lá dentro, a imagem do Bom Jesus fica no altar principal, colorido e dourado, cercado de flores e de fiéis. A grande festa acontece no começo de agosto, com missa cantada, procissão e dezenas de milhares de romeiros, muitos chegando a pé. A Semana Santa é o outro período de movimento forte, e o resto do ano os visitantes chegam principalmente aos domingos.

Pirapora do Bom Jesus recebe romeiros desde a década de 1730, quando aconteceu a primeira festa ao Bom Jesus.
Nos fins de semana, principalmente aos domingos, a praça em volta do santuário vira feira, com barracas de artigos religiosos, fitinhas, terços e doces caseiros. Os carrinhos de doce vendem cocadas de vários sabores, doce de abóbora, de batata-doce, de cidra e quebra-queixo.
O samba dos barracões dos romeiros
Por décadas, os romeiros chegavam em grupos e passavam dias na cidade, dormindo nos barracões da igreja, que abrigavam de graça quem não tinha dinheiro para pousada. Foi ali, entre o fim do século 19 e meados do 20, que o samba de bumbo floresceu: os grupos vindos de várias cidades do interior tocavam o bumbo, cantavam e travavam desafios de versos improvisados noite adentro.

Em 1930, o sambista Honorato Missé formou o primeiro grupo de samba de roda conhecido da cidade, e alguns de seus integrantes continuaram tocando por décadas. Os barracões foram demolidos nos anos 1950, mas a memória ficou. O Espaço Samba Paulista Vivo, conhecido como Casa do Samba, mantém um centro de memória com fotos, instrumentos e acervo sobre os sambistas da cidade.
Portal dos Romeiros e Praça do Encontro
Na chegada à cidade, o Portal dos Romeiros homenageia quem fez e ainda faz a caminhada até o santuário. É uma passagem de pedra de 30 metros, com arco de ferro e a inscrição com o nome do portal.

No centro, a Praça do Encontro tem um monumento dedicado aos milagres atribuídos ao Senhor Bom Jesus e uma fonte. Perto dali funciona a Escola de Arte Sacra e Ofícios, criada em 2001, onde jovens aprendem a fazer peças religiosas sob encomenda.
O seminário e o mirante dos 113 degraus
No alto, atrás do santuário, fica o Seminário Premonstratense, em atividade desde 1898. O prédio abriga os cônegos da Ordem de São Norberto, que cuidam do santuário, e chama a atenção pela igreja alta, de tom dourado.

Para chegar ao mosteiro são 113 degraus, e a subida vale pela vista: lá de cima se vê a cidade inteira, com o santuário, as casas coloridas e o rio.
Voo livre em Pirapora do Bom Jesus
O Morro do Capuava é o ponto de voo livre mais próximo da capital, usado por dezenas de pilotos de parapente e asa-delta. Quem não voa pode subir pela trilha curta até o topo, onde há um cruzeiro e uma vista ampla do vale do Tietê e das serras.

O acesso à rampa é por uma estrada de terra, sinalizada com placas de “Voo Livre”. A área tem ainda trilhas para mountain bike e espaço para piquenique. Em dias de vento bom, vale ficar um tempo só olhando as decolagens.
Dicas para visitar Pirapora do Bom Jesus
Pirapora do Bom Jesus fica a cerca de 54 quilômetros de São Paulo, pela Rodovia Castelo Branco e pela Estrada dos Romeiros, e faz parte do Roteiro dos Bandeirantes, além de ser ponto de passagem de quem faz caminhadas de fé pela região. É um bom bate-volta: o centro, com o santuário, a praça e a feira, se percorre a pé. Os domingos são os dias mais movimentados.
A cidade é um dos quatro municípios da Serra do Japi, e a vizinha Santana de Parnaíba tem centro histórico do período colonial. Para quem faz roteiros de fé, Aparecida é a outra grande parada de romeiros no estado.
Uma imagem achada no rio, um samba nascido nos barracões e cocada no carrinho: Pirapora do Bom Jesus guarda as tradições dos romeiros pertinho da capital.
Você já foi a Pirapora do Bom Jesus em dia de festa?




