Parque Carlos Botelho tem o maior primata das Américas, trilha suspensa de 2,1 km e a Via Láctea no céu

Fêmea de muriqui com o filhote agarrado ao corpo, andando sobre um galho na Mata Atlântica do Parque Carlos Botelho
Uma fêmea de muriqui com o filhote no Parque Carlos Botelho. Foto: Luciano Della Nina (Santaugusta) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

No alto das árvores do Parque Carlos Botelho vivem os muriquis, os maiores macacos das Américas, que andam em bandos pela copa da Mata Atlântica. Para chegar perto deles, o parque ganhou em 2024 uma trilha suspensa de 2,1 quilômetros, construída no meio da floresta, e à noite, longe das luzes das cidades, o céu mostra a Via Láctea inteira.

O parque estadual fica entre São Miguel Arcanjo, Sete Barras e Capão Bonito, a cerca de 210 quilômetros de São Paulo, e protege perto de 38 mil hectares de mata, rios e cachoeiras. É um dos pedaços de Mata Atlântica mais bem conservados do estado.

Os muriquis do Parque Carlos Botelho

O muriqui é o maior primata das Américas e um dos mais ameaçados de extinção, porque depende de grandes áreas de Mata Atlântica bem conservada. No Parque Carlos Botelho vive uma das maiores populações de muriquis-do-sul do país, que se deslocam em bandos pela copa das árvores.

Muriqui-do-sul de pelagem clara no alto de uma árvore, entre folhas, no Parque Carlos Botelho
Um muriqui-do-sul no alto das árvores. Foto: Drferraz88 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O parque oferece roteiros específicos de observação de muriquis e de outros primatas, acompanhados por monitores, que conhecem os pontos onde os bandos costumam passar. Como são passeios guiados, é preciso agendar com antecedência.

O Parque Carlos Botelho abriga uma das maiores populações de muriquis do país, o maior primata das Américas.

A trilha suspensa de 2,1 km

A grande novidade do parque é a Trilha da Canela, inaugurada em 2024 no núcleo de São Miguel Arcanjo. São 2,1 quilômetros de passarela suspensa no meio da floresta, que permitem caminhar perto das copas e observar aves, macacos e outros bichos sem pisar no chão da mata. O governo de São Paulo a apresenta como a maior trilha suspensa do mundo dentro de uma unidade de conservação.

Trilha no meio da Mata Atlântica com samambaias, palmeiras e pedras cobertas de musgo
Trilha a caminho do braço do Rio Taquaral. Foto: Bruna Leone Gagetti / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (recortada)

A passarela foi adaptada para receber pessoas com mobilidade reduzida, idosos e crianças. Na mesma linha, a Trilha das Bromélias também é acessível. Ao todo, o parque tem 13 trilhas, das mais curtas e autoguiadas até percursos mais longos, como a da Represa Fornos e a do Braço do Rio Taquaral, que exigem agendamento.

Cachoeira, rio e boia-cross no Parque Carlos Botelho

Várias trilhas do Parque Carlos Botelho terminam em cachoeiras e poços de água gelada no meio da mata. A mais famosa é a Trilha da Cachoeira do Muriqui, que, por ser mais complexa, também precisa ser agendada.

Cachoeira caindo entre a mata fechada no fim de uma trilha do Parque Carlos Botelho, com pedras e samambaias
Uma cachoeira no fim de uma das trilhas do parque. Foto: Tatiane Cerqueira Villela Santos / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Para quem quer se molhar, o boia-cross desce cerca de 1 quilômetro do Rio Taquaral, passando por poços de água clara, em grupos pequenos e com monitor. O passeio leva cerca de uma hora e depende de agendamento e das condições do rio.

A estrada-parque

Uma das experiências mais bonitas é a própria chegada. A Rodovia SP-139, entre São Miguel Arcanjo e Sete Barras, atravessa o parque como uma estrada-parque, com piso de paralelepípedo, curvas e mata fechada dos dois lados. Em vários trechos, as copas das árvores se juntam por cima da pista.

Estrada de paralelepípedos em curva atravessando a Mata Atlântica fechada
A estrada-parque que corta o Carlos Botelho. Foto: olahbr / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Dirija devagar: a velocidade é baixa justamente para proteger os bichos que cruzam a estrada. O parque também tem ciclorroteiros que somam 47 quilômetros, para quem prefere conhecer a mata de bicicleta. Na borda do parque, em São Miguel Arcanjo, as quaresmeiras pintam a paisagem de roxo na época da floração.

Quaresmeiras floridas de roxo à beira de uma estrada de terra vermelha na borda do parque
Quaresmeiras na borda do parque, em São Miguel Arcanjo. Foto: Bruna Leone Gagetti / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (recortada)

Aves e bichos da mata

Além dos muriquis, o parque abriga onças-pintadas, uma grande população de jacutingas e mais de 220 espécies de aves. Há um observatório de aves e roteiros guiados para quem quer fotografar beija-flores e outras espécies da Mata Atlântica.

Beija-flor de plumagem verde e azul brilhante pousado num fio fino
Um beija-flor no parque. Foto: Pierossi21 (Felipe Pierossi) / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Os bichos aparecem com mais facilidade nas primeiras horas da manhã. Leve binóculo, roupa de cores neutras e fale baixo nas trilhas, para não espantar os animais antes de chegar perto.

A Via Láctea sobre a mata

Longe das grandes cidades, o céu do Parque Carlos Botelho fica muito escuro à noite. Em noites sem lua e sem nuvens, a Via Láctea aparece de ponta a ponta sobre as palmeiras, um espetáculo raro para quem mora em cidade grande.

Via Láctea atravessando o céu estrelado sobre a silhueta de palmeiras no Parque Carlos Botelho
A Via Láctea sobre a mata do parque. Foto: Thiagomarcelcampi / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O parque tem um roteiro noturno de observação de fauna e uma hospedaria no meio da floresta, para quem quer dormir lá dentro e aproveitar a noite. Para ver o céu com calma, prefira os meses mais secos.

Por que o parque se chama Carlos Botelho

O Parque Carlos Botelho foi criado em 1982, juntando antigas reservas florestais do estado numa área de mais de 37 mil hectares. O nome homenageia Carlos José de Arruda Botelho, médico, agricultor e político que foi secretário da Agricultura de São Paulo no começo do século 20 e defendeu a proteção das matas paulistas.

Ele era filho do conde do Pinhal, o fazendeiro de café que doou as terras para a fundação de São Carlos. A casa onde a família viveu é hoje a Fazenda do Pinhal, aberta a visitas guiadas, no interior do estado.

Dicas para visitar o Parque Carlos Botelho

O parque fica a cerca de 210 quilômetros de São Paulo, ou três horas e meia de carro, com entrada pela SP-139. Ele abre todos os dias, e os ingressos são comprados on-line, com data e horário marcados. Algumas atividades são gratuitas, outras são pagas, e as que exigem monitor precisam de guia contratado.

Os melhores meses são abril, maio, setembro, outubro e novembro, quando chove menos e a temperatura é agradável. Leve tênis de trilha, repelente, capa de chuva e água. Para completar a viagem pelo Vale do Ribeira, o vizinho Parque Intervales, as cavernas do PETAR e a cidade histórica de Iguape ficam na mesma região.

Macacos gigantes nas copas, uma passarela entre as árvores e um céu cheio de estrelas: o Parque Carlos Botelho mostra a Mata Atlântica como pouca gente já viu.

Você toparia caminhar na trilha suspensa para ver os muriquis?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.