Iguape guarda a primeira casa de fundição de ouro do Brasil e um dos maiores conjuntos coloniais de SP

Centro histórico de Iguape iluminado ao entardecer, com as duas torres da Basílica do Bom Jesus e a serra sob um céu alaranjado
Iguape vista do mirante ao pôr do sol. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Muito antes do café e da cana, o ouro passou por Iguape. Num sobrado do centro, hoje transformado em museu, funcionou a casa onde o metal tirado dos rios da região era fundido e registrado para a Coroa portuguesa, considerada a primeira casa de fundição de ouro do Brasil. Em volta dela, ruas de pedra e sobrados coloridos formam o maior conjunto de casario colonial preservado do estado de São Paulo.

A cidade fica no Vale do Ribeira, a cerca de 200 quilômetros da capital, entre o Rio Ribeira de Iguape e o Mar Pequeno. Além do centro histórico, tem uma basílica que levou quase sete décadas para ficar pronta, um mirante com vista para o litoral e praias quase desertas na Juréia.

A primeira casa de fundição de ouro do Brasil

No século 17, o ouro de aluvião encontrado nos rios do Vale do Ribeira precisava passar pela fundição antes de circular, para que a Coroa cobrasse o seu imposto. Um registro de cerca de 1630 cita a “Casa de Officina Real da Fundição do Ouro” de Iguape, que pesquisadores da USP consideram a primeira do país. Uma escavação feita no quintal do prédio encontrou vestígios que confirmaram a atividade de fundição no terreno.

Fachada branca do Museu Histórico e Arqueológico de Iguape, antiga Casa de Fundição, com portas azuis e molduras amarelas
O Museu Histórico e Arqueológico, no prédio da antiga Casa de Fundição. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Hoje o casarão abriga o Museu Histórico e Arqueológico de Iguape, com peças da ocupação colonial, objetos de cerâmica, fotografias e um acervo que conta a escravidão e os ciclos do ouro e do arroz na região. Confirme o horário antes de ir, porque ele costuma mudar.

Iguape guarda, num sobrado do centro, o lugar da primeira casa de fundição de ouro do Brasil, registrada por volta de 1630.

O casario colonial tombado de Iguape

Depois do ouro veio o arroz. No século 19, a cidade enriqueceu com a lavoura do grão, e o dinheiro virou sobrados de dois andares, com sacadas de ferro, janelas altas e fachadas coloridas. Esse conjunto foi tombado pelo Iphan, o órgão federal de patrimônio, e é apontado como o maior casario colonial preservado de São Paulo.

Sobrados coloridos do centro histórico de Iguape, com fachadas verde, rosa e amarela e a Câmara Municipal com sacadas de ferro
Sobrados do centro histórico. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O centro é pequeno e dá para conhecer tudo a pé. Vale caminhar pelas ruas de paralelepípedo em volta da Praça da Basílica, onde ficam os sobrados mais imponentes, a Câmara Municipal e a Igreja de São Benedito, iniciada por volta de 1872.

Basílica do Senhor Bom Jesus

O cartão-postal de Iguape é a Basílica do Senhor Bom Jesus, com as duas torres brancas que aparecem de quase todos os pontos da cidade. Construída em pedra, argamassa e, segundo a tradição, óleo de baleia, ela levou 69 anos para ficar pronta e foi inaugurada em 1856. Lá dentro, a Sala dos Milagres reúne ex-votos e fotografias deixadas pelos devotos.

Torres brancas da Basílica do Senhor Bom Jesus com relógio no frontão, sob céu azul
A Basílica do Senhor Bom Jesus de Iguape. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A Festa do Senhor Bom Jesus, do fim de julho ao começo de agosto, transforma Iguape num dos maiores destinos de romaria do estado, com milhares de fiéis vindos de várias partes do país. Quem gosta de turismo religioso pode emendar a viagem com Aparecida.

Fonte do Senhor e Morro do Espia

No pé do Morro do Espia, a Fonte do Senhor fica dentro de um parque arborizado. A tradição conta que foi ali, numa pequena gruta, que lavaram a imagem do Senhor Bom Jesus, e o lugar continua sendo parada de devotos e visitantes.

Pequena construção branca em forma de cúpula sobre a Fonte do Senhor, com caminho de pedras e mata ao redor
A Fonte do Senhor, no pé do Morro do Espia. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)v

Da fonte sai a trilha ecológica do Morro do Espia, com cerca de 2 quilômetros pela Mata Atlântica até o Mirante da Pedra Lisa. Quem prefere não caminhar pode subir de carro ao Mirante do Cristo, no alto do morro. Lá de cima, a vista alcança o centro histórico, o Mar Pequeno, a Ilha Comprida e, em dias claros, a Ilha do Cardoso. No fim da tarde, o sol se põe atrás da serra e as torres da basílica ganham luz dourada.

O Valo Grande e o Mar Pequeno

Iguape é cercada de água. No século 19, para encurtar o caminho do arroz até o porto, abriram um canal ligando o Rio Ribeira ao Mar Pequeno, o Valo Grande. A correnteza alargou o canal com o tempo, separou a cidade do continente e mudou o estuário, que ficou com menos sal e viu o mangue sofrer, um assunto estudado até hoje.

Águas largas do estuário cercadas de vegetação, com as torres da basílica ao fundo
O estuário, com a cidade ao fundo. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O estuário em volta da cidade é um grande berçário de peixes, caranguejos e aves de mangue. No Parque Porto do Ribeira, ao lado da barragem do Valo Grande, fica um dos lugares mais bonitos de Iguape para ver o pôr do sol sobre o rio.

As praias da Juréia, em Iguape

A praia do município fica dentro da Estação Ecológica Juréia-Itatins, uma das áreas de Mata Atlântica mais preservadas do litoral paulista. Para chegar, é preciso atravessar o Rio Ribeira de balsa e seguir de carro. A faixa de areia é longa e quase deserta, com o Costão da Juréia, de grandes pedras escuras, e a mata descendo até o mar.

Grandes pedras escuras na areia do Costão da Juréia, com mar e encosta coberta de Mata Atlântica
O Costão da Juréia. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Não há estrutura de quiosques nem restaurantes, então leve água, comida e protetor solar. Mais perto da cidade, a Praia da Barra do Ribeira tem cerca de 6 quilômetros, com trechos urbanizados e outros desertos.

Dicas para visitar Iguape

Iguape fica a cerca de 200 quilômetros de São Paulo, ou três horas e meia de carro pela Rodovia Régis Bittencourt. Em área, é o maior município do estado, com quase 2 mil quilômetros quadrados, então reserve tempo para os deslocamentos até a Juréia. A vizinha Ilha Comprida fica a poucos minutos, do outro lado do Mar Pequeno.

Artesanato de madeira, cestos e garrafas decoradas expostos no Centro Integrado de Turismo de Iguape
Artesanato no Centro Integrado de Turismo. Foto: Alf Ribeiro / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

No Centro Integrado de Turismo, a feira de artesanato vende peças de madeira, cestos e lembranças da região. Na hora de comer, prove os frutos do mar e os pratos caiçaras servidos no centro histórico. Para quem quer mais natureza no Vale do Ribeira, dá para combinar a viagem com as cavernas do PETAR e as trilhas de Intervales.

Ouro, arroz, romeiros e mangue: em Iguape, cada rua conta um pedaço da história do Brasil, e o mirante mostra tudo de uma vez só.

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.