Silveiras, a cidade dos tropeiros, tem pássaros de madeira, farofa de içá e cachoeira na Bocaina

Pássaros de madeira pintados à mão em cores vivas, pousados sobre tocos, no artesanato de Silveiras
Pássaros de madeira, o artesanato mais famoso de Silveiras. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Antes de existirem estradas asfaltadas, quem levava mercadorias entre São Paulo e o Rio de Janeiro eram os tropeiros, com seus burros carregados, parando para descansar em ranchos pelo caminho. Num desses ranchos, no Vale do Paraíba, nasceu Silveiras.

Os tropeiros eram os caminhoneiros do Brasil colônia e do Império: por estradas de terra e trilhas de serra, levavam ouro, café, sal, tecidos e notícias de uma cidade para outra. A pequena cidade do Vale Histórico, a cerca de 230 quilômetros da capital, ainda vive dessa memória. Tem casario antigo, uma festa inteira dedicada aos tropeiros, oficinas que entalham pássaros de madeira e um restaurante famoso por um prato que surpreende muita gente: farofa de formiga.

Uma cidade nascida num rancho de tropeiros

Silveiras surgiu na época da expansão do café, em volta de um rancho de tropeiros da família Silveira, perto da antiga estrada que ligava São Paulo ao Rio, a hoje chamada Rodovia dos Tropeiros. Virou município em 1864.

Rua de pedras com casas coloniais brancas de portas verdes e a torre da igreja ao fundo, no centro histórico de Silveiras
Casario antigo no centro de Silveiras. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

A cidade também tem marcas de guerra: no local do monumento da Santa Cruz ainda há sinais das trincheiras usadas na Revolução Liberal de 1842 e na Revolução Constitucionalista de 1932. Hoje, o centro é tranquilo, com ruas de pedra e casas coloniais de portas coloridas.

Pássaros de madeira, o artesanato de Silveiras

Silveiras é conhecida como a capital nacional do artesanato em madeira. Espalhadas pela cidade, oficinas de artesãos transformam pedaços de madeira em enfeites para a casa, brinquedos educativos e, principalmente, pássaros.

São aves típicas da região, entalhadas e pintadas à mão com cores tão vivas que parecem prontas para voar. O artesanato é uma das principais fontes de renda da cidade, e as peças estão à venda em lojas do centro e nas próprias oficinas.

Silveiras é conhecida como a capital nacional do artesanato em madeira, famosa pelos pássaros pintados à mão.

Farofa de içá no Restaurante do Ocílio

O endereço mais famoso da cidade é o Restaurante do Ocílio, na Fazenda do Tropeiro, à beira da antiga estrada dos tropeiros. Ele foi criado por Ocílio Ferraz, cozinheiro, escritor e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, que morreu em 2016. A casa segue sob nova direção, aberta todos os dias na hora do almoço.

Rancho rústico de madeira com bancos, objetos antigos de tropeiros pendurados e placa entalhada com a figura de um tropeiro
O rancho do Restaurante do Ocílio, na Fazenda do Tropeiro. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O cardápio é de comida tropeira, com feijão tropeiro, arroz com urucum e carne à moda da Bocaina. Mas a fama vem da farofa de içá, feita com a rainha da formiga saúva. A tradição, que estava sumindo, foi resgatada por Ocílio. No rancho do restaurante, objetos antigos contam a vida dos tropeiros.

E tem um detalhe que torna a visita em outubro especial: é nesta época do ano, com as primeiras chuvas depois da seca, que as içás saem dos formigueiros e a farofa fica mais fácil de encontrar. Além do restaurante, a iguaria aparece em feiras e eventos da cidade, e o cheiro da içá torrada é um dos sinais de que a temporada começou.

Espaço Cultural Nenê Emboava

No centro, um casarão antigo pintado de amarelo e vermelho abriga o Espaço Cultural Nenê Emboava, inaugurado em 2013, com exposições e eventos culturais.

Casarão amarelo de dois andares com janelas e portas vermelhas, sede do Espaço Cultural Nenê Emboava, em Silveiras
O casarão do Espaço Cultural Nenê Emboava. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

O nome homenageia Nenê Emboava, figura querida da cultura local e um dos criadores da Festa do Tropeiro. Perto dali, no Rancho dos Tropeiros, uma estátua mostra o tropeiro típico da região, com o seu burro e o seu cachorro.

Praça da Matriz de Silveiras

O coração da cidade é a Praça Padre Antônio Pereira de Azevedo, a praça da Matriz, com jardins, postes de ferro e coreto. É ali que moradores e visitantes se encontram no fim da tarde.

Praça com postes de ferro, coreto e jardins diante da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, sob céu azul
A praça da Matriz. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Em frente fica a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, padroeira de Silveiras, com a torre pontuda que aparece de várias ruas do centro.

Cachoeira do Paraitinga

Para quem gosta de natureza, o passeio é a Cachoeira do Paraitinga, no bairro dos Macacos, nas encostas da Serra da Bocaina. São 25 quilômetros de asfalto e mais 6 de estrada de terra a partir da cidade. O bairro é mais antigo que a própria Silveiras: ele e o vizinho bairro do Bom Jesus surgiram ainda no ciclo do ouro, também em volta dos tropeiros, no caminho que segue para Cunha e Paraty.

Rio Paraitinga descendo em corredeiras largas sobre pedras, entre a mata, na Cachoeira do Paraitinga, em Silveiras
A Cachoeira do Paraitinga, no bairro dos Macacos. Foto: Aniello de Vita / expressão studio, Banco de Imagens da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo (recortada)

Ali, o Rio Paraitinga desce em corredeiras largas sobre as pedras, com trechos mais calmos para molhar os pés. A cachoeira é ponto de encontro de moradores e turistas. Como em todo rio de serra, evite entrar em dia de chuva forte, quando a água sobe rápido.

Festa do Tropeiro e dicas para visitar Silveiras

O grande evento da cidade é a Festa do Tropeiro, que acontece no último fim de semana de agosto. Ela nasceu de um desfile de tropas em 1980, e a primeira edição oficial foi em 1981. Desde então, a cidade se enche de cavaleiros, burros e mulas, comida típica e música, numa celebração da vida no lombo dos burros que movimentou o Vale do Paraíba por séculos.

Silveiras fica a cerca de 230 quilômetros de São Paulo, pela Via Dutra. Para ver a cidade mais animada, escolha outubro, a época da içá, ou o último fim de semana de agosto, quando acontece a festa. Fora dessas datas, o ritmo é de cidade pequena, bom para quem quer sossego. Dá para combinar a visita com outras cidades do Vale Histórico, como São José do Barreiro e Bananal, e com o Parque Nacional da Serra da Bocaina.

Pássaro de madeira na mala, farofa de içá no prato e histórias de tropeiro na conversa: Silveiras é o tipo de cidade pequena que deixa saudade.

Você teria coragem de provar a farofa de içá?

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Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.