Durante 65 anos, o mico-leão-preto foi considerado extinto. Até que reapareceu nas matas do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste de São Paulo, e hoje cerca de 1.200 deles vivem no Parque Estadual Morro do Diabo, a maior área de Mata Atlântica do interior paulista.
No meio dessa floresta ergue-se o morro que dá nome ao parque, uma elevação de topo achatado que guarda lembranças de um deserto antigo e um punhado de lendas. Do alto, a vista alcança o Rio Paranapanema e um mar de árvores até o horizonte.
Um morro que já foi deserto
O Morro do Diabo fica perto de Teodoro Sampaio, a cerca de 690 quilômetros da capital, quase na divisa com o Paraná e o Mato Grosso do Sul. Há milhões de anos, toda essa região fazia parte de um grande deserto, o Deserto Caiuá. Com o tempo, o vento e a chuva desgastaram o terreno, mas o morro resistiu, porque é feito de um arenito mais duro que o das terras em volta.

Por isso ele se destaca na paisagem: o topo chega a cerca de 600 metros de altitude, enquanto as partes mais baixas do parque ficam perto dos 280 metros. A área é protegida desde 1941 e virou parque estadual em 1986. Junto com a vizinha Estação Ecológica Mico-Leão-Preto, protege mais de 40 mil hectares de floresta.
O mico-leão-preto que voltou dos extintos
O mico-leão-preto é um primata pequeno, de pelagem preta com reflexos dourados na cauda e nas costas. Por décadas, os cientistas acreditaram que ele tinha desaparecido, até que foi redescoberto nas matas do Pontal. Um dos pontos de redescoberta fica na área da Trilha da Lagoa Verde, dentro do parque.
Hoje o parque abriga cerca de 1.200 micos-leões-pretos, e a espécie virou símbolo da conservação em São Paulo. Eles vivem nas copas e nos troncos das árvores altas da floresta.
O mico-leão-preto foi considerado extinto por 65 anos e hoje tem cerca de 1.200 indivíduos no Parque Estadual Morro do Diabo.
Onças, antas e a maior reserva de peroba-rosa
O mico divide a floresta com outros bichos ameaçados, como a onça-pintada, a onça-parda, a anta e a queixada, um porco-do-mato que anda em bandos. Bugios e macacos-prego também vivem por ali, e veados circulam pelas áreas abertas do parque.

A floresta do Morro do Diabo é do tipo estacional semidecidual, aquela em que parte das árvores perde as folhas no período seco. Ela guarda a maior reserva de peroba-rosa do mundo, árvore alta de madeira nobre.
A trilha até o topo do Morro do Diabo
A principal trilha sobe até o alto do Morro do Diabo. São de 2 a 3 quilômetros, feitos em uma caminhada de uma hora e meia a três horas, com nível moderado, e o percurso é sempre acompanhado por monitor do parque, com agendamento antecipado.

Lá de cima, a vista mostra a floresta se estendendo até o horizonte, o Rio Paranapanema e, nos limites do parque, as pastagens e os assentamentos rurais que cercam a mata. A trilha não é adaptada para pessoas com dificuldade de locomoção.
Lagoa Verde, Pedro Bill e outras trilhas
A Trilha da Lagoa Verde tem 500 metros, é acessível para cadeirantes e tem placas que explicam a fauna e a flora. Uma passarela de madeira atravessa a lagoa coberta de plantas aquáticas.

A Trilha Pedro Bill, de 2 quilômetros e fácil, segue pela beira do Rio Paranapanema e é boa para ver bichos e ambientes alagados. Há ainda a Trilha do Barreiro da Anta, com 1,7 quilômetro, e a Trilha da Cotia. A Ferrovia-Angelim, com 40 quilômetros, é reservada a pesquisadores, mas recebe um passeio de bicicleta aberto ao público uma vez por ano.

As lendas do Morro do Diabo
Ninguém sabe ao certo de onde vem o nome. Registros do século 19 já falam em “Serra do Diabo” e “Cachoeira do Diabo”, e a região acumulou lendas. Uma diz que quem subir o morro dez vezes poderá ver o diabo. Outra fala de uma pedra em forma de poltrona que ganharia destaque nas noites de lua cheia.

A versão mais sombria conta que bandeirantes atacaram uma aldeia indígena, e que os indígenas responderam com uma emboscada. Os mortos encontrados no morro teriam sido vistos como “obra do diabo”. O próprio parque trata a história como lenda, sem documentos que a confirmem. Também se fala de um antigo cemitério indígena no local, mas expedições de antropólogos nunca encontraram sinais dele.
Dicas para visitar o Morro do Diabo
O parque fica a 11 quilômetros do centro de Teodoro Sampaio, pela estrada SPV-28. A entrada é gratuita, e a visitação vai de terça a domingo, a partir das 8h. As trilhas guiadas precisam de agendamento, e houve períodos de reforma com apenas parte delas aberta, então confirme a programação com a Fundação Florestal antes de ir.
O parque tem um pequeno museu com coleções de borboletas e outros bichos da região, e hospedagem simples, mas não tem restaurante. A 2 quilômetros há restaurante e pousada, e Teodoro Sampaio tem mais opções. O aeroporto mais próximo é o de Presidente Prudente, a cerca de 120 quilômetros. A cidade, entre os rios Paraná e Paranapanema, é conhecida pela pesca esportiva e tem um balneário com praia artificial, o Recanto dos Eucaliptos. Para conhecer outros refúgios de primatas raros em SP, o Parque Carlos Botelho guarda os muriquis, e Intervales tem grutas e centenas de espécies de aves.
Uma floresta que já foi deserto, um morro cheio de histórias e um macaquinho que voltou dos extintos: o Morro do Diabo vale a viagem até o fim do mapa paulista.
Você já tinha ouvido falar do mico-leão-preto?




