A fazenda mais antiga de São Paulo fica em Itu, tem registros desde 1595 e serve almoço no fogão a lenha

Varanda comprida da sede da Fazenda Concórdia, com telhado colonial, colunas e canteiros de flores na frente
A varanda da sede da Fazenda Concórdia, em Itu. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Quando a Fazenda Concórdia aparece pela primeira vez nos documentos, em 1595, a cidade de São Paulo era uma vila pequena. Mais de quatro séculos depois, a sede continua de pé na zona rural de Itu, com paredes de taipa, senzala, tulhas de café e um galpão de máquinas movidas a água.

Hoje a fazenda abre as porteiras para visitas guiadas que contam essa história cômodo por cômodo, com café da própria plantação e almoço feito no fogão a lenha.

A fazenda mais antiga de São Paulo

Os registros confirmam a existência da sede da Fazenda Concórdia desde 1595, o que faz dela a fazenda mais antiga do estado de São Paulo e uma das construções rurais mais antigas do Brasil. Para ter uma ideia, a vila de São Paulo tinha sido fundada só 41 anos antes, em 1554, e a própria Itu só seria fundada em 1610. Ela fica no bairro do Pedregulho, na zona rural de Itu, a cerca de 90 quilômetros da capital.

Pastos verdes e morros suaves vistos da Fazenda Concórdia, na zona rural de Itu
A paisagem em volta da fazenda, no bairro do Pedregulho. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

No começo, a Concórdia serviu de ponto de apoio para os bandeirantes que partiam rumo ao interior. Ali eles se abasteciam de comida e descansavam antes de seguir viagem pelo sertão. Com o tempo, os campos receberam cana-de-açúcar, café e gado, acompanhando cada ciclo da economia paulista.

A Fazenda Concórdia tem registros desde 1595 e é considerada a fazenda mais antiga do estado de São Paulo.

Taipa, senzala e tulhas na Fazenda Concórdia

A sede foi erguida em taipa de pilão e pau a pique, técnicas de terra e madeira usadas nos primeiros séculos da colonização. Ainda dá para ver trechos das paredes originais, e no salão principal se percebem duas fases da construção, uma mais antiga e outra feita depois, com o crescimento da fazenda.

Restos de muro de barro e tijolo cobertos de plantas ao lado de uma construção antiga caiada
Muros antigos no conjunto da fazenda. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Por volta de 1800, a Concórdia chegou a cerca de 3 mil hectares, com centenas de milhares de pés de café, cultivados por pessoas escravizadas. A antiga senzala e as tulhas, os depósitos onde o café era guardado, continuam de pé e fazem parte da visita.

Conjunto de construções antigas da fazenda, uma caiada de branco e outra de tijolo aparente, com morro de pedras ao fundo
Construções do conjunto da fazenda. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Imigrantes italianos e a turbina

Com o fim da escravidão, chegaram os imigrantes italianos, e a fazenda mudou de cara. Foram construídas casas de tijolo para as famílias de colonos e instaladas máquinas movidas a água, como moinhos e uma turbina que gerava a própria energia elétrica, uma novidade para a época.

Galpão antigo de madeira e tijolo com máquinas e engrenagens de beneficiamento
O galpão das máquinas. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Parte desse maquinário ainda funciona e é usada para beneficiar o café produzido na fazenda, que os visitantes provam durante o passeio. As casas da antiga colônia, em fileira, mostram como viviam os trabalhadores que substituíram a mão de obra escravizada no cafezal.

Fileira de casas antigas de colonos com portas e janelas azuis, à beira de uma rua de terra
Casas da antiga colônia. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

Como é a visita à Fazenda Concórdia

A visita guiada passa pelas diferentes fases da Fazenda Concórdia, do tempo dos bandeirantes ao café dos imigrantes, e mostra tanto o cotidiano dos trabalhadores quanto os costumes da elite cafeeira. Em alguns roteiros, o dia começa com café da manhã servido nas antigas tulhas, seguido de uma caminhada pelas trilhas do cafezal.

Quiosque de telhado vermelho num gramado com palmeiras e um muro alto de terra ao fundo
Área de convivência da fazenda. Foto: Vladimir Benincasa / Grupo de Pesquisa Patrimônio, Cidades e Territórios (UFMT), Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0 (recortada)

O almoço é preparado no fogão a lenha, e a degustação do café da fazenda fecha a experiência. Alguns pacotes incluem ainda pães, bolos e cachaça artesanal. A fazenda recebe visitantes aos sábados e domingos, e o passeio dura cerca de três horas ou mais. Como o roteiro muda conforme o dia e o tamanho do grupo, é preciso agendar antes, pelo perfil oficial da fazenda.

Outras fazendas históricas de Itu

A zona rural de Itu guarda outras fazendas do tempo colonial. A Fazenda Vassoural, de 1790, tem uma sede térrea e comprida, com telhado de quatro águas e paredes de taipa de pilão. As terras pertenceram a Beatriz Borba Gato, e em 1756 foram compradas por Antônio Pacheco da Silva, descendente de bandeirantes. Desde então, a fazenda segue com a mesma família, há sete gerações.

A Vassoural começou como engenho de açúcar e depois passou para o café. Seu maior tesouro é um forno do tipo “trem-da-jamaica”, usado para ferver o caldo de cana, que pode ser o último exemplar desse tipo no país. O nome lembra a Jamaica, grande produtora de açúcar no Caribe. As visitas são feitas só com agendamento e contam a história dos ciclos da cana e do café e do período da escravidão.

Perto dali, a Fazenda Capoava, com sua capela e day use, completa um roteiro de fazendas pela região.

Itu, berço da República

As fazendas ajudam a entender por que Itu foi tão importante no século 19. Foi o dinheiro da cana e do café que ergueu os casarões do centro e reuniu na cidade, em 18 de abril de 1873, a Convenção de Itu, encontro que fundou o Partido Republicano Paulista. Por isso Itu ganhou o apelido de berço da República, e o sobrado onde aconteceu a reunião hoje é o Museu Republicano.

Dicas para visitar a Fazenda Concórdia

Para chegar, siga pela Rodovia Dom Gabriel Paulino Bueno Couto até o km 84 e entre na Estrada da Concórdia, no bairro do Pedregulho. Vá de tênis ou bota, porque parte do passeio é feita a pé pelo terreiro e pelas trilhas, e leve chapéu e protetor solar. Saindo de São Paulo, a viagem de carro leva cerca de uma hora e meia. Reserve com antecedência, principalmente em feriados.

Para emendar a visita com a cidade, o centro histórico de Itu, com seus “exageros”, fica a poucos quilômetros, e o Trem Republicano liga Itu a Salto em vagões de época.

Taipa de quatro séculos, café moído com a força da água e comida de fogão a lenha: a Fazenda Concórdia conta a história de São Paulo desde o começo.

Você gostaria de almoçar na fazenda mais antiga de São Paulo?

Compartilhe esse conteúdo em suas redes sociais

Juliana R.

Juliana R. é formada em Turismo e trabalhou por mais de 15 anos com consultoria de viagens, montando roteiros nacionais e internacionais. No Sal Viral, escreve sobre passeios, cidades históricas, cachoeiras, fazendas e trens do interior de São Paulo, com informações conferidas antes de cada publicação.