A Ilha do Cardoso não tem estradas nem carros. Para chegar, é preciso embarcar no porto de Cananéia e atravessar o canal, e muitas vezes os botos-cinza aparecem no meio do caminho, nadando em grupo perto do barco. Do outro lado esperam mangue, praias quase vazias, cachoeiras e vilas de pescadores que vivem ali há gerações.
A ilha inteira é um parque estadual desde 1962, no extremo sul do litoral paulista, quase na divisa com o Paraná. Cerca de 90% do território é coberto de Mata Atlântica, e é um dos lugares mais preservados do estado.
Como chegar à Ilha do Cardoso
O ponto de partida é Cananéia, a cerca de 270 quilômetros de São Paulo pela Rodovia Régis Bittencourt. Do porto da cidade saem as embarcações credenciadas pelo parque, são 49 ao todo, que levam os visitantes até os núcleos de visitação e as comunidades da ilha.

O destino mais procurado é o Núcleo Perequê, com a Praia do Pereirinha logo ao lado. Quem quer ir mais longe segue de barco até o Marujá, a maior vila da ilha, no lado sul. Combine o horário de volta com o barqueiro antes de desembarcar.
Os botos-cinza no caminho da Ilha do Cardoso
As águas calmas entre a Ilha do Cardoso, Cananéia e a Ilha Comprida são casa de grupos de botos-cinza. Eles costumam se aproximar da costa em famílias e aparecem com frequência já no trajeto de barco, subindo para respirar a poucos metros das embarcações.
Para quem quer ver os botos com mais calma, há passeios de observação saindo do píer da Vila do Marujá, feitos pelos próprios moradores. Não há garantia de encontro, mas a chance é boa, e o silêncio do motor desligado no meio do canal já vale o passeio.
Na Ilha do Cardoso, a travessia de barco já faz parte do passeio: os botos-cinza costumam aparecer no caminho.
Núcleo Perequê: passarela no mangue e museu
No Núcleo Perequê, os visitantes são recebidos por guias, que explicam a fauna e a flora da ilha antes do passeio. De lá sai a passarela de madeira que atravessa o mangue, uma das atrações mais conhecidas do parque, por cima do rio e entre as raízes das árvores.

O centro de visitantes tem um museu de história natural, com peças sobre a vida marinha da região, incluindo esqueletos de grandes animais do mar. É uma boa parada para entender o que se vai ver depois nas trilhas e nas praias.

No Rio Perequê dá para remar de caiaque e de stand-up paddle. À noite, o parque oferece a focagem de jacarés, um passeio com lanterna pelo rio para encontrar os jacarés-de-papo-amarelo que vivem ali.

Pereirinha: a praia com limite de mil visitantes
Depois de cerca de um quilômetro de caminhada a partir do Núcleo Perequê, chega-se à Praia do Pereirinha, colada à do Itacuruçá. A água é calma e rasa, boa para famílias com crianças, e é ali que o Rio Perequê encontra o mar.
Por ser a praia mais visitada do parque, ela tem um limite de mil visitantes por dia. Em feriados e no verão, chegue cedo ao porto de Cananéia para não ficar de fora.
Marujá, Cambriú e as vilas caiçaras
Sete comunidades caiçaras vivem dentro do parque: Marujá, Enseada da Baleia, Pontal de Leste, Foles, Cambriú, Itacuruçá e Pereirinha. São famílias de pescadores que já moravam na ilha antes da criação do parque e hoje tocam as pousadas, os restaurantes e os passeios.

O Marujá é a vila mais estruturada para receber visitantes, com cerca de 50 famílias, pousadas rústicas, campings, almoço com peixe fresco e rodas de fandango, a música e dança tradicional dos caiçaras. É de lá que saem os barcos para as praias mais distantes do sul da ilha.

A ilha também abriga uma aldeia guarani-mbyá, estabelecida ali em 1992. Desde 2023, uma associação de moradores do Itacuruçá e da Pereirinha cuida da operação do turismo na área do Núcleo Perequê, em parceria com o governo do estado.
Praias desertas e a Cachoeira Grande
Na face da Ilha do Cardoso voltada para o mar aberto ficam praias longas e quase sempre vazias, como o Fole Grande, o Fole Pequeno, Ipanema e a Laje, com piscinas naturais entre as pedras. A Praia do Marujá, sozinha, tem cerca de 15 quilômetros de areia.

O passeio de água doce mais tradicional é o da Cachoeira Grande. A partir do Marujá, são cerca de 15 minutos de lancha e mais uns 20 minutos de trilha leve até um poço de água clara, bom para banho. Para quem tem fôlego, há trilhas longas, como a da Cachoeira Ipanema, com cerca de 22 quilômetros ida e volta, e a das Piscinas da Laje, com 25. Todas as trilhas do parque exigem monitor ambiental.
Guarás, mangue e o cerco-fixo
A Ilha do Cardoso faz parte do Lagamar, o complexo de mangues e canais entre Iguape, Cananéia e Paranaguá. Já foram catalogadas quase mil espécies de plantas e cerca de 436 de aves na ilha, além de bugios, lontras, veados-mateiros e o papagaio-de-cara-roxa. Nos mangues, aparecem aves como o guará, de penas vermelhas.

Nos canais em volta da ilha, repare nos cercos-fixos: armadilhas de pesca feitas de varas fincadas na água, em forma de seta, que guiam os peixes até um cercado. É uma técnica artesanal antiga, ainda usada pelos pescadores caiçaras da região.

Sambaquis e a criação do parque
Muito antes dos caiçaras, a ilha foi ocupada por povos que deixaram sambaquis, montes de conchas e restos de comida que hoje são sítios arqueológicos. Há também ruínas do período colonial espalhadas pela mata.
Foi justamente para proteger esses sítios e a floresta que o professor Paulo Duarte, da USP, propôs a criação do parque no fim dos anos 1950, quando a ilha começava a atrair loteamentos. O decreto saiu em 3 de julho de 1962, e o plano previa também uma base de pesquisa do Instituto Oceanográfico da USP na ilha.
Dicas para visitar a Ilha do Cardoso
Não há energia elétrica pública na ilha: pousadas e casas usam geradores e placas solares, e o sinal de celular é fraco ou inexistente. Leve dinheiro, lanterna, repelente, protetor solar e calçado fechado para as trilhas. As pousadas são simples e lotam em feriados, então reserve com antecedência.
É proibido acampar nas praias fora dos campings, levar animais domésticos e retirar plantas, conchas ou bichos. Não há coleta de lixo na ilha, então todo o lixo volta com você para o continente. Para completar a viagem pelo Vale do Ribeira, a cidade histórica de Iguape, o Parque Carlos Botelho e as cavernas do PETAR ficam na mesma região.
Botos no caminho, mangue sob os pés e uma vila onde o fandango ainda toca: a Ilha do Cardoso é o litoral paulista do jeito que ele era antes das estradas.
Você faria a travessia de barco para conhecer a Ilha do Cardoso?




