No meio dos canaviais, a poucos minutos do centro de Santa Bárbara d’Oeste, um cemitério guarda túmulos com epitáfios em inglês. Ali estão enterradas famílias que vieram do Sul dos Estados Unidos depois da Guerra Civil americana e recomeçaram a vida no interior paulista, a cerca de 130 quilômetros de São Paulo.
Essa história aparece no museu instalado numa antiga cadeia, na estação de trem e até no sotaque de alguns sobrenomes da cidade. A cidade nasceu em 1818 ao redor de uma capelinha, no lugar onde hoje está a Matriz. E, para fechar o passeio, o bairro rural do Sapezeiro serve uma linguiça caseira famosa em toda a região.
Os imigrantes do Sul dos Estados Unidos
Quando a Guerra Civil americana terminou, em 1865, cerca de 2 mil sulistas deixaram os Estados Unidos e se estabeleceram nesta região. O governo imperial brasileiro incentivou a vinda deles para impulsionar o plantio de algodão, e as famílias trouxeram novas técnicas agrícolas, a religião protestante e os próprios costumes.
Essa história tem um lado que hoje é bastante discutido. Os registros mostram que a colônia teve mais de 200 pessoas escravizadas, num Brasil que ainda mantinha a escravidão. Por isso, as celebrações dos descendentes, ligadas ao Sul dos Estados Unidos, também geram polêmica na cidade.
Em Santa Bárbara d’Oeste, o Cemitério do Campo guarda túmulos de imigrantes americanos desde 1867.
O Cemitério do Campo, em Santa Bárbara d’Oeste
O Cemitério do Campo, também chamado de Cemitério dos Americanos, começou em 1867 com uma história triste. Beatrice Oliver, mulher do coronel Asa Oliver, morreu e não pôde ser enterrada no cemitério católico porque era protestante. O coronel abriu a sepultura nas próprias terras e depois cedeu cerca de um hectare para as outras famílias americanas.
Hoje são mais de 400 sepultados, muitos sob a sombra das árvores, com lápides de entalhes art nouveau, símbolos maçônicos e inscrições em inglês nas mais antigas. Um obelisco lembra os primeiros imigrantes. O cemitério fica no Bairro do Campo, com acesso por estrada de terra entre os canaviais, e é cuidado pela Fraternidade Descendência Americana. Combine a visita com a fraternidade ou com o turismo da prefeitura antes de ir.
Museu da Imigração, na antiga cadeia
No centro, ao lado da Praça Nove de Julho, o Museu da Imigração ocupa um dos prédios mais antigos de Santa Bárbara d’Oeste. Inaugurado em 1896 como Câmara e cadeia, ele foi projetado pelo arquiteto Victor Dubugras, em tijolos aparentes com detalhes art nouveau. A cadeia funcionou ali até o fim dos anos 1970.

O museu abriu em 1988 com peças doadas pelos descendentes americanos e hoje conta a história das várias levas de imigrantes da cidade. O acervo tem roupas, porcelanas, móveis, armas, manuscritos, fotografias e livros raros, e recebe cerca de 20 mil visitantes por ano.
A Matriz e a cidade de 1818
Santa Bárbara d’Oeste foi fundada em 4 de dezembro de 1818, dia de Santa Bárbara, em volta de uma capelinha de pau-a-pique. A primeira capela foi demolida para dar lugar à igreja atual, com a torre do relógio que se destaca na praça central e hoje é tombada pela prefeitura.
Estação Cultural e a Usina Santa Bárbara
A antiga estação ferroviária, também tombada pela prefeitura, foi revitalizada e virou a Estação Cultural. Lá funciona o Memorial da Ferrovia, com objetos, documentos, livros e vídeos sobre as estações e os trens que passavam pela cidade.

A cana também deixou a sua marca. A Usina Santa Bárbara foi instalada em 1914 nas terras da antiga Fazenda São Pedro, e os galpões de tijolos aparentes são considerados um marco do patrimônio industrial da cidade, que passou da lavoura à indústria ao longo do século 20.

Linguiça no Sapezeiro, em Santa Bárbara d’Oeste
O bairro rural de Santo Antônio do Sapezeiro é conhecido como a terra da linguiça. Foi lá que, nos anos 1960, Amadeu Martignago e Maria Dirce começaram a vender linguiça artesanal numa pequena venda. A receita fez tanto sucesso que, em 1987, o casal abriu o Rancho da Linguiça, um restaurante caipira que a família mantém até hoje.

A linguiça sai em seis sabores, de pernil tradicional, apimentada, com provolone, com rúcula e azeitona, com bacon e com mandioca, ao lado de porções de torresmo e costelinha e do prato feito montado pelo cliente. O rancho abre de terça a domingo, das 11h às 16h, tem música ao vivo nos fins de semana e foi escolhido pelo governo do estado para o programa Rotas Gastronômicas SP.

A igrejinha de Santo Antônio, no centro do bairro, recebe todos os anos a festa do padroeiro, com muita comida típica.
Parque Araçariguama
Para esticar as pernas, o Parque Araçariguama, no Jardim Itamaraty, tem um lago com passarela suspensa, gramados e sombra para piquenique. Fica aberto o dia todo e é um dos lugares preferidos dos moradores no fim de semana.

Dicas para visitar Santa Bárbara d’Oeste
Santa Bárbara d’Oeste fica a cerca de 130 quilômetros de São Paulo, vizinha de Americana. Um bom roteiro de um dia é começar pelo museu e pela estação, no centro, almoçar no Sapezeiro e deixar o cemitério para o começo da tarde, depois de confirmar a visita.
Dá para emendar a viagem com Piracicaba, pela Rodovia Luiz de Queiroz, onde o Engenho Central conta outra parte da história da cana no interior paulista.
Túmulos com epitáfios em inglês, uma cadeia que virou museu e linguiça feita do jeito do Seu Amadeu: Santa Bárbara d’Oeste tem mais histórias do que parece à primeira vista.
Você conhecia a história dos imigrantes americanos no interior de São Paulo?




